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Meio Ambiente

Manaus, setembro e a fumaça que ficou

Não estamos sufocando porque a natureza ficou hostil. Há hostilidade suficiente na própria forma como organizamos nossa relação com ela

Manaus, setembro e a fumaça que ficou

Foto: Chico Batata/Divulgação

Há alguns anos, setembro começou a adquirir em Manaus uma aparência própria. Não me refiro apenas ao calor, que sempre pertenceu à experiência de viver nesta parte da Amazônia, nem àquela luminosidade excessiva das tardes da estação menos chuvosa, quando o concreto parece devolver para os corpos tudo aquilo que recebeu do sol ao longo do dia. Refiro-me à outra coisa, mais recente e mais incômoda: a possibilidade de acordar, abrir a janela e descobrir que o mundo lá fora perdeu profundidade. Os prédios continuam onde sempre estiveram, as ruas continuam levando aos mesmos locais, os ônibus repetem seus itinerários, as pessoas atravessam a cidade para trabalhar, estudar, vender, comprar, ensinar, cuidar dos filhos, voltar para casa; no entanto, entre nós e tudo aquilo que conhecemos há uma camada cinzenta, um cheiro persistente de matéria queimada e uma sensação difícil de afastar de que algo, em algum lugar, não deveria estar acontecendo daquela maneira.

Em setembro de 2026, essa sensação deixou novamente de ser episódica. Há duas semanas Manaus amanhece sucessivamente atravessada pela fumaça, e nesta quarta-feira, 23 de setembro, a concentração média de partículas finas PM2,5 chegou a 188,5 microgramas por metro cúbico, segundo a própria Prefeitura, numa escala em que o ar já era classificado como péssimo. A RedeAr havia registrado, ao longo do mês, média superior a 30 µg/m³, enquanto a Organização Mundial da Saúde utiliza 15 µg/m³ como referência para uma média de 24 horas. Em diferentes sensores da cidade, os picos foram ainda maiores.

É estranho escrever sobre o ar porque quase nunca pensamos nele, há coisas cuja importância parece depender justamente de não precisarmos percebê-las. Ninguém acorda agradecendo a estabilidade da pressão atmosférica ou pensando na composição química daquilo que entra pelos pulmões; respiramos porque respirar pertence àquela parte mais banal da existência que imaginamos não precisar ser politicamente conquistada todos os dias. Talvez por isso a fumaça produza um incômodo que vai além da ardência nos olhos ou da garganta ressecada, ela transforma em problema aquilo que deveria permanecer elementar. De repente é necessário saber o que significa PM2,5, consultar aplicativos, interpretar cores, acompanhar direção dos ventos, descobrir qual máscara oferece proteção adequada, decidir se uma criança deve sair de casa, se uma caminhada deve ser adiada, se vale a pena abrir uma janela. A vida continua, mas alguma coisa muito pequena e muito fundamental foi deslocada: já não respiramos simplesmente; começamos a administrar a respiração. Aliás, PM2,5 é isso: material particulado fino, formado por partículas com diâmetro de até 2,5 micrômetros, pequenas o suficiente para penetrar profundamente nos pulmões e, em alguns casos, alcançar a corrente sanguínea.

No início de setembro de 2026, os sensores registraram sucessivos episódios de degradação do ar antes de chegarmos à situação desta quarta-feira, 23 de setembro. O portal Amazônia Real [1] reuniu registros do Selva de 48,5 µg/m³ no dia 8, 118 no dia 9, 182,7 no dia 13 e 129,5 no dia 17; no dia 23, havia pontos com valores superiores a 200 e 300 µg/m³. A manchete de que Manaus teria naquele momento o pior ar entre as cidades acompanhadas por uma plataforma internacional certamente produz impacto, embora comparações instantâneas entre cidades e sistemas de monitoramento precisem ser lidas com cuidado. O que me parece mais significativo não é saber se durante algumas horas respiramos um ar pior do que Kinshasa, Nova Délhi ou qualquer outra cidade do planeta, mas perceber que já não precisamos de nenhuma competição estatística para compreender a gravidade do que está acontecendo. O extraordinário está suficientemente próximo, ele entra pela janela, pelo ar-condicionado.

Talvez exista uma tendência compreensível de olhar para a fumaça e procurar imediatamente a dita “natureza”. É o El Niño, a estiagem, a ausência de chuvas, o calor extremo, o vento que mudou de direção e sim, tudo isso é verdadeiro e importa. Manaus alcançou 38,6 °C no dia anterior ao episódio mais intenso, o El Niño altera a circulação atmosférica e as condições mais secas tornam a vegetação mais suscetível ao fogo e dificultam sua dispersão. Mas existe alguma coisa intelectualmente perigosa quando a explicação começa e termina aí, porque então a fumaça retorna ao domínio confortável dos fenômenos naturais e aquilo que é socialmente produzido passa a adquirir aparência de fatalidade. A estiagem não limpa terreno, o El Niño não amplia pastagem, o vento não decide transformar vegetação em outra forma de uso da terra. Na floresta amazônica o fogo não é uma estação, embora tenhamos adquirido o hábito curioso de falar em “temporada de queimadas” como se estivéssemos mencionando a cheia e a vazante dos rios. As condições naturais explicam a potencialidade de propagação e a intensidade, mas não explicam sozinhas a existência das chamas.

Os dados talvez ajudem a retirar da fumaça essa aparência de acaso. Segundo o INPE, entre 1º e 22 de setembro de 2026, o Amazonas registrou 3.240 focos de calor, diante de 942 no mesmo intervalo de 2025, crescimento de 244%. Poucos dias antes, o Ministério Público de Contas já havia chamado atenção para o aumento dos registros e para sua concentração em corredores como Apuí, Novo Aripuanã, Manicoré e Lábrea, mas neste ano há uma mudança espacial particularmente importante: o fogo se aproxima e se intensifica também na Região Metropolitana de Manaus. Careiro, Iranduba e Autazes aparecem entre os municípios com forte presença de focos, enquanto o IPAM identificou concentração ao longo do Rio Amazonas, nas proximidades do Encontro das Águas e no eixo da BR-319. A fumaça que recobre Manaus não possui, portanto, uma origem única, ela resulta de uma geografia móvel, determinada pela localização das queimadas, pelas condições atmosféricas e pelos ventos, reunindo no mesmo ar acontecimentos que ocorrem a dezenas, centenas e, em alguns episódios, milhares de quilômetros de distância.

É neste ponto que a fumaça começa a dizer alguma coisa sobre Manaus que talvez os mapas administrativos digam mal: passamos muito tempo aprendendo a separar a capital do restante do Amazonas. Há Manaus e há o interior, expressão estranha para um espaço tão vasto, como se tudo aquilo que estivesse depois da última avenida pertencesse a uma espécie de exterior impreciso. A cidade pôde, assim, imaginar a si mesma como centro industrial, polo de serviços, metrópole verticalizada, espaço relativamente apartado daquela floresta que aparece nas fotografias, nos discursos turísticos e nas campanhas publicitárias como uma moldura ao redor da vida propriamente urbana. A fumaça desfaz essa representação com uma facilidade desconcertante, ela atravessa limites municipais, rios e estradas e deposita dentro da cidade a materialidade daquilo que preferimos imaginar distante. Aquilo que queima em Autazes, Manacapuru, Iranduba, Careiro ou mais ao sul do estado não permanece onde aconteceu. Uma parcela de sua história termina no pulmão de alguém que espera ônibus na avenida Autaz Mirim, dentro de uma sala de aula no centro da cidade, na casa fechada de uma família em Flores ou na respiração de uma criança no Tarumã.

Não há nisso nenhuma poesia da integração regional, há apenas uma constatação incômoda sobre a produção do espaço: podemos estabelecer juridicamente onde termina uma propriedade, politicamente onde termina um município e cartograficamente onde começa outro, mas nenhuma dessas linhas obriga a atmosfera a obedecer. A terra pode ser apropriada privadamente, cercada, convertida em ativo, incorporada à produção, utilizada segundo interesses determinados; o ar que carrega os resíduos dessa transformação permanece inevitavelmente compartilhado. Existe uma contradição quase elementar aí, uma sociedade capaz de individualizar parcelas cada vez menores do espaço continua incapaz de individualizar integralmente as consequências daquilo que faz nelas. Parte dos ganhos pode permanecer privada; parte dos custos retorna como experiência coletiva. Em setembro, um desses custos tem cheiro.

A fumaça permite também enxergar algo que às vezes desaparece quando falamos genericamente em “população de Manaus”. Evidentemente todos respiram o ar ruim, mas seria enganoso concluir daí que todos vivem a mesma situação. Uma casa com climatização, filtros adequados, automóvel fechado e condições de suspender atividades externas estabelece alguma distância entre o corpo e aquilo que acontece na rua. Essa distância custa dinheiro, para quem trabalha ao ar livre, atravessa duas horas de transporte público, vende mercadorias nas calçadas, pilota motocicleta, trabalha na construção civil ou mora numa casa em que fechar todas as portas e janelas significa permanecer submetido ao calor quase insuportável deste setembro, a recomendação de “evitar exposição” adquire algo de abstrato. Não existe igualdade diante da atmosfera quando são tão desiguais as possibilidades de se proteger dela. O mercado, que já organiza de maneira desigual o direito à terra, à moradia, ao deslocamento e ao descanso, começa a organizar também pequenas reservas privadas de ar respirável.

Talvez isso explique por que as orientações emitidas nesses dias, embora absolutamente necessárias do ponto de vista sanitário, produzem em mim certo desconforto quando lidas fora de seu contexto. Feche as janelas, evite atividade física, use máscara N95, mantenha-se hidratado, proteja crianças e idosos – há uma racionalidade correta em cada recomendação, e seria absurdo recusá-las. O que incomoda é outra coisa: a rapidez com que um problema produzido social e espacialmente retorna para nós na forma de uma tarefa individual. A terra queimada, a estrutura fundiária, os usos econômicos do território, a fiscalização, a expansão de determinadas atividades, a capacidade concreta do Estado de impedir o fogo aparecem de um lado; do outro, no interior da casa, resta ao indivíduo aprender a sofrer corretamente as consequências. Há algo de muito contemporâneo nessa passagem, quando as causas parecem grandes demais para serem modificadas, multiplicam-se os manuais para administrar seus efeitos.

Isso se torna ainda mais difícil de aceitar quando o problema não chegou sem aviso. Em junho, o Amazonas já havia declarado emergência climática e ambiental de maneira preventiva; em agosto havia alertas para o agravamento das condições de estiagem e para a necessidade de fortalecer os planos de contingência. Em 15 de setembro, o Ministério Público de Contas acionou a Procuradoria-Geral da República diante do avanço dos focos e da fumaça que alcançava Manaus [2], questionando precisamente se as ações anunciadas possuíam capacidade operacional suficiente para alcançar os territórios onde os incêndios se concentravam. Não se pode afirmar que nada foi feito: existem operações, fiscalização, bombeiros mobilizados, monitoramento por satélite, drones, campanhas, decretos de proibição do fogo e redes de sensores, a questão é talvez mais grave justamente porque não estamos diante de simples ausência. Estamos diante de uma sociedade que conhece o risco, produz instrumentos para medi-lo, cria estruturas para administrá-lo e, ainda assim, reencontra periodicamente o mesmo problema diante da janela.

Isso me parece mais perturbador do que a velha narrativa do despreparo, o despreparo permite imaginar que, depois de aprendermos, o problema será resolvido. Mas nós aprendemos; depois de 2023, aprendemos muito sobre fumaça em Manaus. Sabemos identificar material particulado, conhecemos a relação entre os incêndios e as massas de ar, ampliamos as redes de sensores, acumulamos estudos sobre exposição e saúde, aperfeiçoamos previsões, incorporamos novos protocolos. Hoje sabemos quase em tempo real onde há fogo e quanto daquele fogo conseguimos respirar, talvez nunca tenhamos possuído tanta informação sobre a catástrofe no momento em que ela acontece. E, no entanto, informação não é transformação. É perfeitamente possível conhecer cada vez melhor uma realidade que continua piorando.

O caso do Parque das Tribos [3] talvez diga mais sobre isso do que qualquer dado. O fogo atingiu a vegetação próxima às residências e permaneceu durante dias lançando fumaça sobre uma comunidade de aproximadamente cinco mil pessoas, entre elas centenas de crianças e mais de uma centena de idosos. Moradores relataram gestantes, pessoas acamadas, pessoas com deficiência, crianças com sintomas respiratórios permanecendo dentro de casa enquanto a fumaça ocupava o ambiente, animais foram atingidos pelo incêndio. Na manhã desta quarta-feira, o sensor instalado na área registrava 209,6 µg/m³ e há uma brutalidade particular nesses relatos porque eles devolvem corpo aos números. Dizer 209,6 é preciso; dizer que uma mãe passa quatro dias vendo a filha asmática respirar a fumaça produzida pelo fogo talvez seja mais verdadeiro.

A rede estadual registrou 132 atendimentos associados à inalação de fumaça entre julho e 22 de setembro [4], são apenas os casos que chegaram ao sistema de saúde e foram registrados dessa maneira, portanto o número não contém todos os olhos ardendo, todas as dores de cabeça, todas as crises respiratórias manejadas em casa e todos os efeitos que talvez apareçam muito depois de setembro. O material fino que hoje produz a névoa acinzentada possui tamanho suficiente para penetrar profundamente nos pulmões; os danos possíveis não terminam quando o céu volta a ficar azul.

Talvez seja precisamente esse desaparecimento rápido da fumaça que nos ajude a conviver com ela. Incêndios dessa escala produzem consequências duradouras no espaço, mas a experiência urbana da crise é intermitente. O vento muda, a chuva aparece, a visibilidade melhora e, em poucos dias, a cidade recupera suas cores. O edifício que havia desaparecido no horizonte volta a estar lá, o cheiro sai das roupas, abrimos as janelas, a urgência política acompanha a visibilidade e também começa a desaparecer. Há uma espécie de alívio que se confunde facilmente com solução, como se o problema terminasse no momento em que deixamos de vê-lo.

Manaus conhece bem essa forma de esquecimento. Vivemos cercados por acontecimentos que retornam ciclicamente e que, por retornarem, acabam sendo incorporados à linguagem da normalidade. Falamos da grande cheia, depois da seca extrema, depois de outra cheia, depois da maior seca, do maior calor, da fumaça mais intensa, dos recordes sucessivos. Há sempre um superlativo novo à espera do próximo ano, e talvez seja esse o modo mais silencioso pelo qual o extraordinário perde sua força. O recorde de ontem converte-se na referência de hoje, aquilo que parecia insuportável torna-se comparação para saber se este ano foi pior ou melhor. O intolerável não desaparece; apenas deslocamos um pouco a linha a partir da qual começaremos a chamá-lo assim.

É difícil não reconhecer nessa capacidade de adaptação alguma coisa profundamente humana, continuar vivendo talvez seja aquilo que fazemos melhor. Não podemos suspender a vida a cada crise, abandonar a cidade a cada fumaça ou esperar que todos os problemas estruturais estejam resolvidos para voltar ao trabalho na segunda-feira. A criança precisa comer, a conta precisa ser paga, a aula precisa acontecer, alguém precisa dirigir o ônibus, alguém precisa atender no hospital, alguém precisa produzir aquilo que permite que os outros continuem. Mas existe uma fronteira difícil entre sobreviver a uma condição adversa e tornar essa condição socialmente aceitável. Quando criamos protocolos suficientes para continuar funcionando dentro da crise, corremos o risco de confundir nossa capacidade de suportá-la com a capacidade de resolvê-la.

Talvez seja essa a melancolia específica desses dias em Manaus, não a sensação grandiosa de que o mundo está acabando, mas uma coisa muito menos espetacular: a percepção de que o mundo pode piorar sem precisar acabar. Durante muito tempo imaginamos a catástrofe como interrupção, a cidade destruída, a economia paralisada, as pessoas abandonando suas casas, algum acontecimento capaz de separar definitivamente um antes e um depois. Mas existe outra possibilidade, provavelmente mais próxima de nós: nada termina, apenas se torna progressivamente mais difícil, mais caro, mais quente, mais insalubre, e nós reorganizamos a vida para caber naquilo que restou. Compramos um aparelho a mais, fechamos uma janela, mudamos um horário, usamos outra máscara, evitamos determinado percurso e chamamos de adaptação essa sucessão de pequenas perdas que pouco a pouco redefine o que entendemos por uma vida normal.

A crise climática talvez esteja chegando dessa maneira, não como a cena derradeira que tantos filmes imaginaram, mas como administração cotidiana. Um pouco menos de chuva aqui, um pouco mais de calor ali, o rio descendo além do que descia, a navegação comprometida por algumas semanas, a conta de energia crescendo, a fumaça retornando em setembro. Cada problema aparece separadamente e recebe sua resposta técnica correspondente, embora juntos talvez contém uma história diferente: a de uma sociedade que adquiriu extraordinária capacidade de produzir riscos e uma capacidade igualmente extraordinária de individualizar a tarefa de sobreviver a eles.

E há algo especialmente perverso quando essa história acontece na Amazônia. Passamos décadas ouvindo que Manaus está no coração da maior floresta tropical do mundo, expressão repetida tantas vezes que já quase não sabemos o que significa. Talvez devêssemos começar pela constatação mais simples de que estar no coração de alguma coisa não significa estar protegido por ela. A floresta não é cenário, reserva paisagística ou cinturão verde disposto ao redor da metrópole para garantir sua pureza atmosférica. É território produzido e disputado, atravessado por estradas, propriedades, cidades, rios, circulação de mercadorias, atividades econômicas e projetos políticos contraditórios. A fumaça que chega a Manaus apenas torna impossível, durante alguns dias, continuar fingindo que essas relações são externas à vida urbana.

Não estamos sufocando porque a natureza ficou hostil. Há hostilidade suficiente na própria forma como organizamos nossa relação com ela.

Por isso talvez seja inadequado dizer que a fumaça esconde Manaus, em certos momentos, ela parece fazer justamente o contrário. O cinza retira da paisagem alguma coisa de sua aparência habitual e permite perceber relações que permanecem menos visíveis nos dias de céu limpo. Quando a fumaça atravessa bairros ricos e pobres, hospitais e escolas, áreas industriais e comunidades indígenas urbanas, ela não elimina as desigualdades; revela o modo como elas reaparecem até mesmo diante daquilo que aparentemente seria comum a todos. Quando atravessa o limite entre os municípios, revela quanto a metrópole depende do espaço que costuma chamar de interior. Quando obriga órgãos públicos a emitir alertas sobre um problema anunciado meses antes, revela a distância entre conhecer e impedir. Quando transforma o ato de respirar em recomendação médica, revela alguma coisa sobre o tipo de normalidade que estamos dispostos a conservar.

Daqui a alguns dias provavelmente choverá, ou os ventos mudarão. A fumaça diminuirá e Manaus recuperará aquela aparência que nos tranquiliza. Talvez setembro termine sem que nos lembremos com precisão de qual quarta-feira o céu ficou pior, qual sensor registrou qual índice, em que momento exatamente a garganta começou a arder. A vida cotidiana possui também essa misericórdia: esquecer é muitas vezes necessário para continuar.

O problema é que aquilo que esquecemos não necessariamente deixou de existir.

As áreas queimadas permanecerão onde estão, os interesses sobre a terra permanecerão, as condições climáticas que tornam o fogo mais destrutivo permanecerão conosco e provavelmente se tornarão mais severas. Permanecerão as limitações da fiscalização, a desigualdade das formas de proteção, a expansão de usos do território que transformam a vegetação em obstáculo, os corpos que respiraram por dias aquilo que queimou longe deles. Permanecerá também a possibilidade de que, no próximo setembro, abramos novamente a janela e reconheçamos imediatamente aquele cheiro.

Talvez então digamos que é época de fumaça, e é essa frase, mais do que qualquer índice registrado nesta quarta-feira, que deveria nos assustar.

Porque uma sociedade começa a perder alguma coisa importante quando transforma em estação aquilo que ela própria produz historicamente, quando atribui ao calendário aquilo que pertence às suas escolhas e quando aprende a chamar de inevitável aquilo que apenas se repetiu vezes suficientes para parecer natural.

Amanhã Manaus amanhecerá outra vez. Os ônibus circularão, as lojas abrirão, as escolas receberão seus alunos e milhares de pessoas atravessarão a cidade antes que o calor se torne ainda mais insuportável. Talvez o horizonte esteja mais limpo, talvez não. A cidade continuará, como sempre continuou, fazendo da necessidade uma espécie de virtude.

Não sei se há algum consolo nisso.

Há momentos em que sobreviver demonstra força, há outros em que apenas revela o quanto já aprendemos a suportar.

 

 

Fernando Monteiro

Doutor em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

 

 

Notas

[1] https://amazoniareal.com.br/o-ar-de-manaus-e-o-pior-do-mundo/

[2] https://mpc.am.gov.br/2026/09/mpc-am-aciona-pgr-diante-do-avanco-das-queimadas-e-pede-reforco-da-atuacao-na-adpf-743/

[3] https://revistacenarium.com.br/incendio-atinge-area-de-mata-e-mobiliza-moradores-em-bairro-indigena-de-manaus/

[4] https://oamazonas.com.br/crise-respiratoria-amazonas-fumaca-atendimentos/

 

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