
Foto: Paulo Moura/PT Amazonas
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República, com 51,79% dos votos válidos e 64,2 milhões de votos, encerrou a disputa presidencial de 2026 com uma vitória apertada sobre Flávio Bolsonaro (PL), que obteve 48,21%. A diferença, entretanto, não se repetiu em Manaus, onde Flávio conquistou 55,83% dos votos válidos, contra 44,17% de Lula. A capital amazonense permaneceu, assim, um reduto eleitoral favorável ao bolsonarismo, porém com o crescimento da votação petista entre o primeiro e o segundo turno.
O cenário após o resultado do 1º turno permitiu a esquerda manauara experimentar uma estratégia diferente: deslocar sua mobilização política dos espaços tradicionalmente associados às manifestações para uma área popular da cidade.
No dia 18 de outubro, organizações sociais, partidos políticos, movimentos sociais e sindicatos se reuniram no Parque Gigantes da Floresta, situado entre os bairros Tancredo Neves e Novo Aleixo, na Zona Leste de Manaus. A proposta era ampliar o diálogo com os eleitores e mobilizar votos para Lula a uma semana do segundo turno.
Mas uma questão permanece: a esquerda conseguiu transformar a ocupação política da periferia em resultado eleitoral?
Para compreender o significado desse movimento, é necessário observar a geografia das manifestações políticas em Manaus.
Historicamente, o Centro concentrou parte importante dos atos públicos da cidade. Nas Jornadas de Junho de 2013, por exemplo, espaços como a avenida Eduardo Ribeiro, a Praça do Congresso e o Largo de São Sebastião integraram o circuito das mobilizações populares. São lugares de centralidade urbana, circulação de pessoas e visibilidade política.

Em 2016, durante as manifestações relacionadas à Operação Lava Jato e ao impeachment da então presidenta Dilma Rousseff (PT), o Parque Ponta Negra também surgiu como espaço de grandes atos, especialmente entre os setores identificados com a direita. Enquanto isso, manifestações organizadas por partidos e movimentos de esquerda continuaram a ocupar com frequência áreas centrais, como a Praça do Congresso e o Largo de São Sebastião.
Essa distribuição espacial não é irrelevante. Os locais escolhidos para uma manifestação expressam estratégias de comunicação, disputas simbólicas e formas de apropriação da cidade. O Centro oferece visibilidade e centralidade; a periferia, por sua vez, aproxima a mobilização dos territórios onde vivem e trabalham parcelas expressivas da população.
A escolha do Parque Gigantes da Floresta ganhou importância em 2026. Em vez de concentrar a mobilização exclusivamente nos espaços centrais, a esquerda levou seu ato para uma área densamente habitada da capital, buscando estabelecer uma relação mais direta com os eleitores da Zona Leste. A iniciativa dialoga com uma questão antiga: o distanciamento entre organizações partidárias de esquerda e parte dos trabalhadores das periferias.
Em 2018, o rapper Mano Brown chamou a atenção para esse problema ao criticar a dificuldade de setores da esquerda em dialogar com a população que historicamente constituiu parte de sua base social.
A presença de militantes e símbolos partidários em um parque da periferia produz imagens e narrativas sobre quem ocupa aquele espaço e a quem pretende representar. Entretanto, a aparência de proximidade não garante, por si só, a construção de vínculos políticos duradouros. A questão é saber se a mobilização consegue ultrapassar o momento do ato e estabelecer uma relação efetiva com a população local.
Os resultados eleitorais nas proximidades do Parque Gigantes da Floresta oferecem elementos para essa discussão.
No primeiro turno, Lula apresentou desempenho relativamente melhor em apenas dois bairros da Zona Leste de Manaus: Colônia Antônio Aleixo e Puraquequara, os únicos em que obteve vantagem.
Colégios eleitorais 1ºturno. Azul: Flávio Bolsonaro Vermelhos: Lula

1° Turno – Locais de votação que cada candidato foi melhor. Fonte: Eleições, 2026. Nexo Jornal
Nos demais bairros, a candidatura petista enfrentou maior resistência eleitoral, vencendo em apenas duas escolas de votação: o CMEI Santina Castro Pereira, localizado no Novo Aleixo, onde Lula obteve 47,4% dos votos (163), contra 41,6% (143) de Flávio Bolsonaro; e a Escola Estadual Professor Rofran Belchior da Silva, no bairro Tancredo Neves, onde o candidato do PT alcançou 49,1% (186 votos), enquanto o candidato do PL registrou 44,3% (168 votos).
No segundo turno, Lula obteve mais votos que Flávio Bolsonaro em todos os oito locais de votação selecionados nas proximidades do Parque Gigantes da Floresta e em seu entorno ampliado. Os resultados mostram que o candidato do PT alcançou a maioria dos votos nesses estabelecimentos, com percentuais que variaram de 50,4% a 58,7%.

2° Turno – Locais de votação que cada candidato foi melhor. Fonte: Eleições, 2026. Nexo Jornal
| Local de votação | Bairro | Lula (PT) | Flávio Bolsonaro (PL) |
| CMEI Santina Castro Pereira | Novo Aleixo | 58,7% (203) | 41,3% (143) |
| Escola do SESI – Dra. Emina Barbosa Mustafa | Coroado | 51,7% (180) | 48,3% (168) |
| E. E. Professor Rofran Belchior da Silva | Tancredo Neves | 55,1% (207) | 44,9% (169) |
| E. M. Nossa Senhora do Rosário | Jorge Teixeira | 52,1% (858) | 47,9% (789) |
| CIME – Josefina Rosa de Mattos Pereira de Castro | Jorge Teixeira | 50,9% (113) | 49,1% (109) |
| E. M. Prof. Roberto dos Santos Vieira | Jorge Teixeira | 50,4% (1.149) | 49,6% (1.130) |
| E. M. Esmeraldo Santos Bessa | Jorge Teixeira | 55,2% (137) | 44,8% (111) |
| E. M. Lucilene de Sena Guimarães | Tancredo Neves | 51,5% (342) | 48,5% (322) |
A vantagem de Lula ocorreu em todos os locais de votação analisados, embora com variações. O maior percentual foi registrado no CMEI Santina Castro Pereira, no Novo Aleixo, onde o candidato alcançou 58,7% dos votos. Já a menor diferença foi observada na Escola Municipal Professor Roberto dos Santos Vieira, no Jorge Teixeira, onde Lula obteve 50,4%, contra 49,6% de Flávio Bolsonaro.
O padrão observado é relevante para compreender a distribuição espacial do voto na Zona Leste de Manaus. Em comparação com o primeiro turno, os resultados indicam uma ampliação da votação de Lula. Entretanto, a proximidade entre essas escolas e o Parque Gigantes da Floresta não comprova, por si só, que o ato político tenha provocado essa mudança. O desempenho petista sugere que existia espaço para disputar eleitores que, no primeiro turno, haviam escolhido outras candidaturas ou votado em Flávio Bolsonaro.
É preciso, contudo, evitar conclusões precipitadas: não é possível atribuir a mudança exclusivamente ao ato no parque. Ainda assim, a concentração de resultados favoráveis a Lula em locais próximos à área torna a mobilização um objeto relevante de investigação.
Fica, portanto, a questão: esse tipo de mobilização também produziu efeitos semelhantes em outras metrópoles brasileiras?
REFERÊNCIA:
https://www.nexojornal.com.br/grafico/2026/10/04/mapa-mais-detalhado-1-turno-2026
https://www.nexojornal.com.br/grafico/2026/10/25/mapa-mais-detalhado-2-turno-2026
https://www.estadopolitico.com.br/campanha-de-lula-projeta-maior-ato-da-esquerda-em-manaus-neste-domingo-18/
Leia mais:









