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Colunista

Luís Lemos

O Avesso da Pele: Muito além da cor

Em uma narrativa marcada por afetos, dores e desigualdades, Jeferson Tenório transforma a história de um pai e seu filho em um convite à reflexão sobre o racismo estrutural e a necessidade de reconhecer a humanidade que existe para além da cor da pele.

O Avesso da Pele: Muito além da cor

Foto: Assessoria

O Avesso da Pele é um daqueles livros que você lê uma, duas, três vezes, e cuja releitura se transforma sempre em uma nova experiência, assim como a pele, que se renova a cada instante.
Li este livro pela primeira vez em 2022 e, de lá para cá, já o reli três vezes. A última leitura aconteceu entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial desse ano e, talvez por isso, tenha doído e me tocado ainda mais.

Até quando continuaremos sem respeitar as escolhas políticas da população nordestina? Até quando persistiremos em manifestar xenofobia e preconceito regional contra aqueles que pensam diferente, reproduzindo situações semelhantes às vividas pelo personagem Pedro? Até quando o preconceito, a discriminação e a intolerância continuarão presentes em nossa sociedade?

O Avesso da Pele é um livro atemporal, um dos grandes romances da literatura brasileira, justamente porque aborda uma questão tão delicada, dolorosa e necessária quanto o preconceito racial, sem recorrer a discursos professorais ou explicações excessivas. Tenório encontra na literatura uma maneira singular de conduzir o leitor para dentro da história, fazendo-o sentir as inquietações, os conflitos e as dores de seus personagens. A identificação com Pedro acontece naturalmente, pois acompanhamos sua tentativa de reconstruir a trajetória do pai, Henrique, um professor negro morto pela polícia, por meio de lembranças, objetos, afetos e silêncios. Aos poucos, a busca por compreender a história do pai transforma-se também em um convite a reconhecer as feridas de uma sociedade marcada pelo racismo.

É justamente isso que o título revela. O avesso da pele representa aquilo que existe para além da cor, o que a sociedade tantas vezes se recusa a enxergar: um homem com afetos, falhas, sonhos e medos. Tenório mostra que o corpo negro é julgado antes mesmo de ser conhecido e que essa violência, ora explícita, ora sutil, atravessa gerações. Ao mesmo tempo, devolve humanidade a Henrique e Pedro, e é justamente aí que o livro mais me toca.

Penso que a maior qualidade dessa obra esteja na capacidade de transformar uma história particular em uma reflexão coletiva. A violência sofrida por Henrique não pode ser compreendida como um acontecimento isolado, tampouco a dor de Pedro se limita à perda do pai. Ambos nos colocam diante de uma sociedade que ainda precisa enfrentar suas contradições, reconhecer suas desigualdades e compreender que nenhuma vida deveria valer menos por causa da cor da pele. A literatura, nesse sentido, não oferece respostas prontas, mas nos ensina a fazer perguntas que não podemos continuar adiando.

Como professor, termino cada releitura com uma inquietação que permanece: quantos Pedros e Henriques passam pelas nossas salas de aula sem que consigamos enxergá-los por inteiro? Quantas histórias desconhecemos porque não aprendemos a escutar? O Avesso da Pele é uma leitura necessária, que desconforta, emociona e transforma. E, cada vez que volto às suas páginas, renovo uma convicção: a educação começa também quando aprendemos a reconhecer a humanidade do outro.

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