No distante ano de 1997, li o livro À paz perpétua: um projeto filosófico, de Immanuel Kant, apenas para fazer uma prova de Filosofia. Naquela época, a leitura parecia mais uma obrigação acadêmica do que um encontro profundo com as ideias do filósofo.
Agora, em 2026, voltei a ler essa obra não mais por obrigação universitária, mas na tentativa de compreender as razões de tantas guerras ainda ativas no mundo.
Depois de refletir longamente sobre suas ideias, cheguei à conclusão de que este livro deveria ser leitura obrigatória para todos os políticos, especialmente daqueles países envolvidos em conflitos ou que insistem em expandir guerras para além de suas fronteiras.
Em toda a obra, Kant nos lembra de que a paz não nasce do medo, das armas ou da força militar, mas da razão, do diálogo, do respeito entre os povos e da construção de instituições capazes de impedir a barbárie.
Logo na primeira seção da obra, Kant afirma: “Nenhum Estado que exista de forma independente — pequeno ou grande, aqui isso tanto faz — pode ser adquirido por outro Estado mediante herança, troca, compra ou doação.” (p. 32)
Essa frase, escrita há mais de dois séculos, continua profundamente atual. Para Kant, um Estado não pertence a um governante como se fosse um objeto ou propriedade particular. “É uma sociedade de seres humanos sobre a qual ninguém além dele mesmo tem de ordenar ou dispor.” (p. 46)
A leitura dessa obra ajuda-nos a compreender muitos conflitos contemporâneos. No caso da Venezuela, por exemplo, grande parte dos debates internacionais envolve justamente a soberania nacional e o direito de autodeterminação diante das pressões externas.
Da mesma forma, a situação da Faixa de Gaza revela um dos maiores dilemas políticos e humanitários do nosso tempo, pois envolve o reconhecimento do direito do povo palestino à existência, à soberania e à construção de um Estado próprio.
Nessa parte da leitura, peguei-me questionando até que ponto potências estrangeiras podem interferir no destino de outras nações sem violar a liberdade dos povos. Não se trata apenas de geopolítica, mas também de dignidade humana.
Talvez seja por isso que a ideia kantiana da “paz perpétua” continue tão necessária: ela nos recorda que nenhuma paz verdadeira pode ser construída sobre a humilhação, o domínio ou a negação da existência do outro.
De forma simples, a proposta de Kant era que nenhum povo poderia invadir um Estado constituído e independente. Para ele, somente a união entre as nações poderia garantir uma paz duradoura, evitando as guerras constantes que marcaram a história da humanidade.
Kant acreditava que a paz verdadeira não surgiria apenas da boa vontade dos governantes ou de acordos temporários. Era necessário criar condições políticas, jurídicas e morais capazes de impedir que os conflitos voltassem a acontecer.
Por fim, mais de dois séculos após sua publicação, À paz perpétua continua atual. A humanidade avançou em ciência e tecnologia, mas ainda não aprendeu a viver em paz. Talvez esse seja o nosso maior desafio: conviver, respeitando-se mutuamente.
Leia mais:










