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Cultura

Breno Lacerda: a cidade sinthomática

A alternativa oferecida por Victor Leandro é a mesma com a qual Joyce barrou sua psicose – a literatura.É o próprio ato de ler o romance que é o h do sintoma. A via é a arte, a escrita, a poesia, a filosofia, a política.

Breno Lacerda: a cidade sinthomática

Manaus é uma personagem recorrente na obra do escritor Victor Leandro. É possível percebê-la até em seus escritos mais antigos, quando a verve “existencialista” e melancólica compunham seus temas centrais. Nesse sentido, ele se junta a Mário de Andrade com sua Paulicéia desvairada, a Jorge Amado com sua Salvador de cores, pecados e calor humano, a seu dileto Dostoievski caminhando nos becos mais sombrios e decadentes de São Petersburgo e a Joyce com sua querida e suja Dublin. Mas qual será a alcunha dessa cidade que nasce da pena “victorleandriana”? Como ela passará a posteridade nas veias deste autor? Talvez sua mais nova narrativa nos dê uma pista.

Refiro-me a Sinthoma, romance lançado em 2026 pela Editora Temiporã. O título já evoca as questões psicológicas retratadas naquelas páginas. Contudo, há pitadas de thriller policial que não deixam nada a desejar aos fãs do gênero. Recurso usado pela primeira vez no seu livro anterior: Rio das Cinzas. Uma das qualidades da obra é propiciar várias entradas de leitura. É possível seguir o caminho policialesco, com violência e trama bem urdida; a saúde mental e a reforma psiquiátrica aparecem numa reflexão crítica; a psicanálise surge sedutora; as questões sociais das lutas de classes, tão caras a Leandro, são potentes ali. A interpretação que faço, entretanto, é de Manaus no divã, a meu ver, o coração da narrativa.

O recém-chegado Dr. Hermes enfrenta o cinismo pernicioso do diretor de um misterioso hospital psiquiátrico na cidade de Manaus em vias de desativação. Hermes chega à instituição para trabalhar em seu último plantão. Depois de ouvir um discurso atravessado pelo desconhecimento de saúde mental, o jovem psiquiatra é conduzido à área dos pacientes, onde se depara com uma cena de total descaso humano. Homens e mulheres em estado deplorável, caminhando de um lado para outro como verdadeiros mortos-vivos ainda de pé por causa da forte medicação. Sem falar da estrutura caindo aos pedaços, entranhada por odores nauseabundos mais afeitos a ratos do que a gente.

Quem conduz Hermes pelas alas dos pacientes entre corredores na penumbra é a Dra. Ana, médica inteligente e calejada pelo trabalho. Há uma espécie de ironia nesta cena. Hermes, na mitologia grega, além da função de ser mensageiro dos deuses, ele era responsável por conduzir as almas dos mortos até a entrada do Hades. Aqui, o Dr.Hermes entra no inferno e é conduzido pelo mundo dos “mortos”. Hospital que chocava até os deuses.

Entre o descaso do estado com a saúde mental e a sanha de arrivistas querendo fincar suas garras no velho hospício para lucrar com o sofrimento do outro, Hermes e Ana experimentam a mais brutal violência da periferia manauara dominada pelo tráfico, presenciam um dos casos de suicidio a céu aberto mais famoso e esquecido da história da cidade, são vítimas do próprio estado e quase tem suas memórias apagadas por indivíduos estranhos, numa clara alusão a como os “doentes” mentais são alienados pela química a violência física de tais instituições, o romance termina com uma dúvida. Fica o convite para a leitura.

Além do enredo instigante e propositalmente aberto a múltiplas interpretações, o título da obra chama a atenção do leitor: SINTHOMA. Em português a obra é grafada sem o “h”, então por que aquela letra é posta ali no meio? Qual o objetivo desta inusitada grafia? o significado se dissolve nos meandros do texto. Lembremos que a palavra é do campo médico, que o define como um alerta biológico, um indicador de que algo no organismo vai mal. Pode ser sentido de forma subjetiva, o paciente relata a sua experiência com aquela sensação; pode ser objetivo: a literatura clínica fornece os parâmetros nosológicos. Diagnosticado, o objetivo é a sua eliminação.

No caso do romance em questão, o sintoma envereda-se para o campo psicológico, ou melhor, psicanalítico. Se recorrermos ao velho Freud, o sintoma é uma forma pela qual o inconsciente encontra uma via para realizar desejos inconcebíveis ao sujeito. No entanto, o objetivo só é alcançado quando há uma formação de compromisso entre o inconsciente, de onde brota a pulsão, e o ego, que resiste a reprimir tais impulsos da consciência. O sintoma atende a essas duas exigências, mas cobra caro. O resultado pode ser uma angústia contínua a uma severa e dolorosa psicopatologia. Porém, o “sintoma freudiano”, não foi escrito com h nas traduções do alemão para o português. Então qual é a sua origem nesse escrito?

Na verdade, o “h” encontra-se em Jacques Lacan, psicanalista francês e o grande leitor de Freud. É no seminário 23 cujo título é: Sinthoma, que repousa o diálogo da narrativa. No começo da sua carreira psicanalítica, Lacan acreditava que o sintoma era estruturado como uma linguagem, um código simbólico a ser decifrado na análise. Dessa forma, quando o paciente interpretava seus conteúdos de forma significativa, a “cura” acontecia. Com o passar do tempo, ele percebeu que não a cura plena, pois a verdade sempre deixa algo escapar. O que existe é uma narrativa com a qual o sujeito convive durante toda a sua vida, a análise trabalha meios dele bancar seu desejo; aí entra o sinthoma. Quando a estrutura é falhante ele surge e funciona como uma amarra de segurança do psiquismo do homem, não o deixando adoecer gravemente. Foi o caso do grande escritor modernista James Joyce, que resistiu a uma psicose por meio da literatura, seu verdadeiro sinthoma.

Recordemos, Victor Leandro põe Manaus no seu divã literário sem remorso. A cidade está aberta do início ao fim da narrativa. o calor infernal, a infraestrutura deficitária das ruas esburacadas, os bairros perigosos, os estrangeiros gananciosos a angariar grana em negócios espúrios com políticos em puteiros dos centros, a herança colonial e legado fáustico do período da borracha presentes ali direta ou indiretamente. Mas também existem as pessoas batalhadoras, homens e mulheres simples tentando sobreviver e uma capital problemática, porém aberta à reconstrução, possível apenas pelas mãos da classe trabalhadora.

Engana-se, quem leu minhas explicações grosseiras dos conceitos lacanianos, que Manaus (na narrativa e na vida real) encontrou o h do seu sintoma. As formas como a classe política e o povo escolhem lidar com sua dor é cada vez mais alienante e adoecedora. Freud, nos termos colocados aqui, é quem melhor explica a cidade. Os acordos feitos para sustentá-la de pé são agressivos, mantém o verniz barato de capital da Amazônia, mas produzem violência, fome, moradia insuficiente, educação pífia e mesquinhez cultural em suas dores. Procura-se o H lacaniano para pôr em meu sintoma.

A alternativa oferecida por Victor Leandro é a mesma com a qual Joyce barrou sua psicose – a literatura.É o próprio ato de ler o romance que é o h do sintoma. A via é a arte, a escrita, a poesia, a filosofia, a política. Talvez uma proposição idealista para uma cabeça tão materialista quanto a dele. Mas sobretudo esperançosa e fosforescente a nos iluminar, ainda que numa luz insuficiente, nessa escuridão neoliberal.

 

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