
Resgatadas 16 crianças de casa em condições deploráveis nos EUA. Algumas não falavam e jovem de 18 anos não sabia escrever o próprio nome - Foto: Youtube, COX NEWS
Um resgate chocante realizado na terça-feira (30) expôs um dos casos mais graves de abuso e negligência infantil já registrados nos Estados Unidos. Dezesseis crianças, todas da mesma família, foram encontradas vivendo em condições desumanas em uma pequena propriedade rural no vilarejo de Hamden, no condado de Vinton, um dos mais pobres do estado de Ohio.
As autoridades encontraram os menores, com idades entre 1 ano e meio e 18 anos, confinados em um único cômodo de aproximadamente 3,5 metros por 3,5 metros, cercados por lixo, sujeira e dejetos humanos. O cenário foi descrito como “repugnante” pelo xerife local, Ryan Cain, que afirmou: “A maior parte do nosso gado vive em condições melhores do que essas crianças.”
O resgate ocorreu durante o cumprimento de um mandado de busca relacionado a uma investigação não divulgada. Ao entrarem na residência, os agentes se depararam com uma cena de abandono extremo: algumas crianças não conseguiam falar, e uma adolescente de 18 anos, com deficiência de desenvolvimento, sequer sabia escrever o próprio nome.
“Pareciam animais selvagens”
O procurador-geral de Ohio, Andy Wilson, visivelmente abalado, descreveu o estado das vítimas como “terrível”. “Elas pareciam quase animais selvagens. É o tipo de coisa que não estamos acostumados a ver aqui nos Estados Unidos”, declarou em coletiva de imprensa na quarta-feira (1º).
Sete crianças foram levadas para hospitais em Columbus, sendo que duas precisaram ser transportadas de helicóptero. Uma delas encontrava-se em estado crítico na terça-feira, enquanto as demais recebem tratamento médico e psicológico. Todas estão sob a custódia temporária do Departamento de Emprego e Serviços Familiares de Ohio.
Família mantinha crianças em “clandestinidade”
Os pais e os dois avós das crianças foram presos e acusados pelo crime de colocar menores em risco, com agravante de danos físicos graves — o que configura um delito de segundo grau na legislação local. Gary Siders Jr., Gary Siders Sr., Christina Siders e Elizabeth Siders compareceram ao tribunal na quarta-feira, onde um juiz registrou a declaração de inocência em nome deles e estipulou fiança de US$ 300 mil para cada um. Os quatro ainda não constituíram defesa legal.
Segundo os investigadores, a família se mudou diversas vezes pelo sul de Ohio nas últimas duas décadas, evitando ao máximo criar registros médicos, escolares ou governamentais. “Essa gente era muito boa em esconder essas crianças”, afirmou Wilson. Nenhuma das crianças estava matriculada em escolas, e parece que ninguém fora do círculo familiar sabia de sua existência.
Vizinhos não suspeitavam de nada
A casa onde as crianças foram encontradas fica em uma estrada isolada, ao lado de um aterro ferroviário, em meio a uma vegetação densa que dificulta a visão dos vizinhos. Apesar de ser visível da estrada, a propriedade estava cercada por entulho: pneus descartados, uma cadeira alta quebrada e outros detritos se acumulavam no quintal.
O vizinho Joseph Stewart, de 60 anos, que mora na rua há seis anos, disse que nunca viu nenhuma criança na residência desde que a família se mudou para o local. “É uma situação triste. Sempre achei que era uma vizinhança tranquila”, lamentou.
Comparações com casos históricos de abuso
O caso em Ohio remete a episódios anteriores de abuso familiar extremo nos EUA. Em 2019, o casal David e Louise Turpin foi condenado à prisão perpétua por torturar e manter 13 filhos em cárcere privado na Califórnia, acorrentando alguns deles e negando-lhes alimentação e educação adequadas.
Agora, as autoridades de Ohio investigam se a família já havia sido denunciada a órgãos de proteção à infância em anos anteriores. Enquanto isso, a pequena comunidade de Hamden, com menos de mil habitantes, tenta digerir o horror que estava escondido a poucos metros de suas casas.

Objetos acumulados em frente à casa onde as 16 crianças foram resgatadas em Ohio, nos Estados Unidos. Foto: Reprodução/WBNS.
Com informações da Associated Press e Agência Reuters.
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