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Colunista

Tereza Nzinga

O tamanho da Mãe não cabe no calendário

Em artigo, docente questiona a limitação de um único dia para celebrar a imensidão do continente berço da humanidade e defende ensino afrocentrado nas escolas

O tamanho da Mãe não cabe no calendário

25 de maio. O calendário oficial nos avisa que hoje é o Dia da África. A data, nascida em 1963 sob a força da Organização da Unidade Africana e mais tarde assumida pela ONU, carrega o peso histórico da emancipação. É o marco da luta contra o colonialismo, o imperialismo e as marcas profundas do apartheid. Simboliza a busca por um continente unificado, um sopro de liberdade inspirado na independência de Gana.

Mas, diante do retrovisor da história, cabe a provocação: será que precisamos de um “dia” da África? O que, afinal, esse continente significa para nós?

Para mergulhar nessa resposta, peço licença para evocar os versos que o poeta Countee Cullen escreveu em 1926, no seu poema Legado:

“O que é a África pra mim: Sol de cobre ou mar carmim Natureza virgem ou trilhas partilhadas Homens fortes bronzeados ou negros retintos Mulheres de cujas entranhas saí […]”

Quase um século depois do poema de Cullen, o imaginário coletivo ainda se ressente de um pacto perverso. Uma herança colonial intencional que insiste em pintar o Continente Mãe com as cores da miséria, do atraso e do selvagismo. Essa narrativa, tida tantas vezes como oficial, perpetua mentiras nos currículos escolares, na academia e na mídia, empurrando corpos negros para a subalternidade ou confinando-os a uma falsa representatividade. Tentam, a todo custo, rasurar um legado monumental de grandeza científica, tecnológica, artística e cultural.

Contudo, o tempo de sermos espectadores da nossa própria história terminou. É passada a hora de reivindicarmos a nossa soberania e trazermos à luz a nossa verdadeira grandeza. É hora de contarmos — e cantarmos — o que nos foi roubado no discurso: nossa história não começa com a escravização. Nosso legado é de reis e rainhas. A África é o berço da humanidade e a sua imensidão simplesmente não cabe nas vinte e quatro horas de um único dia.

É por isso que, habitando o chão da docência há quase uma década, escolhi guiar meus passos pela perspectiva da afrocentricidade. Na minha sala de aula, o ensino caminha de mãos dadas com a escuta, o afeto e o propósito. Ali, busco mostrar que a África é presente, é base, é uma riqueza viva que pulsa nas nossas famílias e comunidades.

Com os meus estudantes, subverto a lógica do esquecimento. Eles aprendem que a matemática tem raiz africana, que a ciência também se escreve com nomes pretos, e que Kemet é muito mais do que um eco do passado: é memória ancestral pulsando em cada lição. É assim, ajudamos a erguer identidades positivas e um sentimento profundo de pertencimento em cada criança.

Se hoje eu pudesse olhar nos olhos de Cullen e responder à sua pergunta centenária, diria sem hesitar: a África para mim é grandeza ancestral, é memória viva. É o colo onde me reconheço e o chão que me sustenta.

1.Afrocentricidade: Paradigma filosófico e teórico estruturado por Molefi Kete Asante na década de 1980 e propõe que os povos africanos sejam agentes de sua própria história.

2.Counten Cullen: poeta, romancista e dramaturgo nascido nos Estados Unidos, foi uma das principais liderança do movimento cultural conhecido como o Renascimento do Harlem.

Referências

ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricidade: A teoria do mudança social. Filadélfia: Amulefi Publishing Company, 2003. (Obra essencial para fundamentar o conceito de Afrocentricidade que guia sua prática).

CULLEN, Countee. Heritage (Legado). Publicado originalmente na obra Color. New York: Harper & Brothers, 1925.

(Nota: O poema foi escrito e publicado entre 1925 e 1926 durante o “Harlem Renaissance”, movimento cultural e político de exaltação da identidade negra nos EUA, do qual Cullen foi uma das vozes mais proeminentes).

OUA (Organização da Unidade Africana). A Carta da Unidade Africana. Adis Abeba, Etiópia, 25 de maio de 1963.

(Documento que fundou a OUA, estipulou a criação da data para combater o colonialismo e o apartheid, e que mais tarde deu origem à atual União Africana – UA).

ONU (Organização das Nações Unidas). Resolução sobre a celebração do Dia da África e a Semana de Solidariedade com os Povos da África que Lutam contra o Racismo e a Discriminação Racial, 1972.

SANTOS, Nei Lopes dos. História e Cultura Africana e Afro-brasileira. Rio de Janeiro: Barsa Planeta, 2007. (Ótimo suporte para a aplicação da Lei 10.639/03 no chão da escola, combatendo os currículos eurocêntricos).

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