
Foto: Assessoria
A educação ganha um sentido muito mais real quando tiramos os olhos da lousa e os voltamos para o chão que pisamos — seja a terra preta, o barro ou a folhagem úmida do nosso pátio. Sou uma professora preta que acredita na força do nosso território. Aqui no Amazonas, onde a natureza impõe seu ritmo, o projeto pedagógico ‘Sementes do Amanhã’ nasceu de uma premissa transformadora: convidar estudantes do 2º ano a se tornarem investigadores do seu próprio lugar, usando o quintal de uma escola periférica na zona leste de Manaus como um laboratório vivo.
Como educadora, parto da compreensão de que a matemática não é uma invenção europeia, mas uma ciência que floresceu na África, berço da humanidade. Minha prática se ancora na Afrocentricidade de Molefi Kete Asante e nas reflexões sobre etnomatemática de autores como Abdias Nascimento e Carlos Machado, que fundamentam a valorização dos saberes ancestrais na educação.
É a partir dessa perspectiva que oriento meus estudantes, majoritariamente negros e indígenas, a reconhecerem sua própria ciência. A ciência, muitas vezes apresentada como abstrata, ganha cor e cheiro de mato na nossa ‘Expedição das Folhas’.
A matemática abandona a repetição mecânica no caderno quando a missão é usar a régua para medir elementos reais, ou classificar texturas, reconhecendo que a lógica habita a vida.
A verdadeira aprendizagem acontece quando conectamos o saber escolar às experiências vividas pelos estudantes. Ao manusear folhas, galhos e pedras, eles organizam sequências, comparam grandezas e compreendem dezenas e operações, valorizando os elementos que compõem sua realidade. Quando construímos o pluviômetro com garrafa PET para medir o ‘toró’ da tarde, estamos investigando os ciclos climáticos com o rigor que a nossa terra exige. É possível, sim, realizar práticas transformadoras e emancipatórias mesmo na periferia.
Aqui, os saberes locais são tratados com a máxima seriedade, respeitando a natureza e a ancestralidade que nos guia.
Esse trabalho culmina no ‘Mural dos Nossos Saberes’, onde a estatística ganha vida pelas mãos de quem a construiu. É a prova de que o conhecimento sólido nasce no coletivo. Essa prática transcende currículos formais e se ancora na filosofia Ubuntu: ‘eu sou porque nós somos’. Para nossa realidade amazônica, isso ganha um sentido vital: eu sou porque a mata, o rio e a floresta são.
Quando ensinamos nossos estudantes a observar e respeitar cada semente e cada gota de chuva, estamos cultivando muito mais do que cientistas mirins. Estamos plantando a certeza de que a Amazônia é a nossa casa, e que a formação humana passa pelo reconhecimento da nossa própria história.
Conhecer e valorizar nossas origens é a única garantia real de um amanhã onde nossos estudantes negros e indígenas possam ocupar todos os lugares com a força de sua ancestralidade.
Referências Bibliográficas
ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricidade: a base da teoria e da prática da eficácia. São Paulo: Sankofa, 2019.
MACHADO, Carlos. Matemática, etnomatemática e educação: a questão da diversidade e da inclusão. São Paulo: Autêntica, 2019.
NASCIMENTO, Abdias. O quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. Rio de Janeiro: Vozes, 2019.
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