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Colunista

Ailane Brito

Primeira corrida lilás do curso de Formação Popular em Direitos das Mulheres

Iniciativa do Curso de Formação Popular em Direitos das Mulheres, do IFPA Campus Óbidos, uniu esporte, educação e conscientização no enfrentamento à violência de gênero

Primeira corrida lilás do curso de Formação Popular em Direitos das Mulheres

Foto: Alana Aires

Ontem, 31 de agosto, Óbidos não testemunhou apenas uma corrida. Testemunhou um ato de memória, resistência e consciência. A 1ª Corrida Lilás do Curso de Formação Popular em Direitos das Mulheres, do IFPA Campus Óbidos, reuniu pessoas em torno de uma causa que não cabe em cinco quilômetros: a luta por direitos, respeito, igualdade e pelo direito fundamental de toda mulher de viver.

Eu estive ali como uma das cursistas envolvidas nessa construção. E talvez por isso tenha percebido que a largada aconteceu muito antes dos corredores começarem a correr.
Ela começou na memória.
Na escadaria do Sesc, os sapatos vermelhos ocupavam o espaço como um silêncio impossível de ignorar.
Cada par representava simbolicamente uma mulher vítima de feminicídio e da violência de gênero. Sapatos sem seus passos. Caminhos interrompidos. Vidas que deveriam continuar, mas foram brutalmente arrancadas.

E talvez seja justamente isso que torne essa imagem tão dolorosa.
Um sapato foi feito para caminhar. Mas aqueles estavam ali para lembrar mulheres que não puderam mais seguir.

A exposição dos Sapatos Vermelhos é uma ação simbólica de enfrentamento à violência contra as mulheres. A cor vermelha transformou-se, naquele momento, em voz, memória e resistência. Uma maneira de dizer que essas mulheres não podem ser reduzidas a números ou estatísticas.

Cada par carregava uma ausência.

E, diante deles, não era possível simplesmente passar.

Era preciso olhar.

Era preciso lembrar.

Era preciso perguntar quantas mulheres ainda precisam morrer para que a sociedade compreenda que violência contra a mulher não é assunto privado, não é “briga de casal”, não é destino e muito menos algo que deva ser naturalizado.

É uma questão de direitos humanos.

Outro elemento construído como atividade pela turma, foi o Varal de Memórias, trazendo histórias de mulheres que fizeram e continuam fazendo história na luta pelos nossos direitos.
E ali estava uma das maiores riquezas da atividade: a memória das que tombaram encontrava a força das que resistiram.

Foto:Rosângela Costa

Mulheres que lutaram antes de nós abriram caminhos. Mulheres de diferentes épocas, territórios e histórias enfrentaram estruturas que insistiam em nos dizer onde deveríamos estar, o que poderíamos fazer e até o tamanho da nossa voz.

Hoje, seguimos caminhando por esses caminhos — mas ainda há muito chão pela frente.

Por isso, a corrida foi muito mais do que esporte.

Foi formação popular.

Foi educação.

Foi ocupação do espaço público.

Foi denúncia.

Foi memória.

Foi encontro.

Foi uma comunidade dizendo que os direitos das mulheres precisam ser conhecidos, defendidos e praticados todos os dias.

E foi também uma demonstração de que a universidade e os espaços de formação podem ultrapassar seus muros quando o conhecimento encontra a comunidade.

Foto: Juenilson Borges

Nós, cursistas, não estivemos ali apenas para organizar uma atividade. Estivemos ali para colocar em movimento aquilo que aprendemos: compreender nossos direitos, reconhecer as diferentes formas de violência e fortalecer uma cultura de respeito e proteção à vida das mulheres. Porque não basta ensinar uma mulher a correr. Precisamos construir uma sociedade onde ela possa correr sem medo.

Correr para estudar.

Correr para trabalhar.

Correr para realizar seus sonhos.

Correr para voltar para casa.

Correr para onde quiser, e voltar viva.

A frase que acompanhou a ação talvez seja uma das que melhor traduzem o espírito desse dia: “Enquanto houver uma mulher sendo silenciada, nenhuma de nós será livre.”

Ontem, algumas mulheres correram cinco quilômetros.

Outras correram com suas histórias.

Outras carregaram suas memórias.

E algumas simplesmente estiveram ali, testemunhando.
Mas todas nós, de alguma maneira, fomos chamadas a compreender que essa luta também é nossa.

Foto: Giulliany Stefany

Porque os sapatos vermelhos permanecerão como lembrança de quem não pôde continuar caminhando.

E nós precisamos caminhar por elas.

Por elas. Por nós. Por todas.

Até que nenhum sapato vermelho precise representar uma vida interrompida.

Até que nenhuma mulher seja silenciada.

Até que respeito não seja exceção, mas regra.

E até que possamos olhar para trás e perceber que essa corrida não foi apenas uma corrida.
Foi um passo.

E quando mulheres caminham juntas, até os passos mais pequenos podem mudar o rumo da história.

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