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Cultura

O deletério de ser Letério, por Grace Cordeiro

Enquanto Franz Kafka em sua metamorfose retira a máscara do homem comum e o transforma em barata, o escritor Marcos Souza faz o inverso, transforma a barata em homem ciente do seu bueiro e das possibilidades de uma parca existência

O deletério de ser Letério, por Grace Cordeiro

Divulgação Livraria Temiporã

Enquanto Franz Kafka em sua metamorfose retira a máscara do homem comum e o transforma em barata, o escritor Marcos Souza faz o inverso, transforma a barata em homem ciente do seu bueiro e das possibilidades de uma parca existência. Como leitora ratifico a cada dia que na literatura não há redenção, há tão somente as escolhas realizadas, sem definição segura do que seja sucesso ou fracasso.

Aqui, no livro-corpo, um espelho sem retoques de uma possível condição humana “zonalestiana” de Manaus. Letério se rasteja filosoficamente na noite porque não quer se pego pela civilidade(?) (“…passou a temer o contato…no clarear do dia…, uma vez que eles poderiam o coagir a arrumar um emprego, uma residência um tantinho mais espaçosa do que a conhecida tubulação de concreto e fazê-lo abdicar das temidas madrugadas” p.41). Ao olhar e ser olhado nas suas andanças noturnas se sentia pertencente e não algo insólito, desta forma foi conhecendo os percalços da sua espécie, a violência ensurdecedora e já institucional, assim como o sexo movido a interesses e possível moeda de troca.

Dito isso, foi um grande prazer ler essa obra enquanto eu estava circulando pelos terminais da Avenida Constantino Nery, onde certamente o personagem principal não iria conseguir chegar. Uma novela marcada de ironias, com uma visão astuta e aguda do escritor, e que a cada lombada do ônibus essa que vos escreve ia mastigando as palavras bem escritas, os seres ali descritos e seus pensamentos, e tal qual um cordão umbilical, limitei-me aos mistérios da Grande Circular, ao igarapé sebento onde esse animal, também capaz de encantamentos e maravilhamentos, deu seus silenciosos e valiosos suspiros.

 

 

Grace Cordeiro
Instagram @gracecordeiro_mao
Autora dos livros de poemas Boca Molhada:poemas juvenis feitos para adultos (2020), A pedra, o rio e as borboletas (2021), Sublingual:cactos flutuantes (2021) e Sem secretos dentes (2023).

 

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