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Vamos falar de literatura? A cidade não inventada na literatura de Marcos Souza, por Márcia Antonelli

Um grande circular foi publicado pela Temiporã Edições e terá seu lançamento acontecendo agora neste sábado, dia 15.08.2026 às 15 horas, na Livraria Temiporã, Rua Rondônia, 19, Flores.

Vamos falar de literatura? A cidade não inventada na literatura de Marcos Souza, por Márcia Antonelli

Reprodução Meio Amargo/ Márcia Antonelli

Escrever sobre Manaus é caroço. Torná-la protagonista de algum trama real ou fantasioso, é caroço. Há que se ter tato, um bom faro, apuro do olhar, coragem e vivência. Sobretudo, vivência. Portanto, não é uma tarefa das mais fáceis, não. É caroço. No entanto, Marcos Souza reúne esses elementos para descrever em seus livros, sejam em contos, crônicas ou em novelas, os dilemas da vida humana numa cidade decadente e sequelada como Manaus. E ele o faz com muita propriedade e talento.

UM GRANDE CIRCULAR é sua novela de estreia. A história é toda ela ambientada em Manaus, precisamente na Zona Leste, e nos conta a história de um citadino chamado Letério, mero andarilho das madrugadas a desvendar as brutalidades de um lugar decadente. A obra dialoga com as nuances e particularidades de um personagem que vive seu limite, à margem da sociedade, tendo o bairro Tancredo Neves e adjacências como seu berço e nicho de sobrevivência. O resto, claro, deixo por conta do leitor. Contudo, já antecipo, para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer a prosa de Marcos Souza, que vale muito a pena conferir. Afirmo isso com base na experiência que tive ao ler seu penúltimo livro, CIDADE DECADENTE: PERSONAS (contos) o qual achei profundo, contundente e necessário. Nesta sua mais nova obra, o autor reúne leveza e crueza poéticas na construção de seus personagens fadados à ruina de suas existências. Mais uma vez, sua ficção lança um olhar para a derrocada do ser humano, seus dilemas, dores, traumas, vícios e defeitos, marcas indeléveis na sua literatura.
Marcos Souza é capaz de mexer e envolver o leitor. Sabe bem contar uma história. Nos instiga e nos faz pensar.

Trecho do primeiro capitulo “Sol Infernal, dilúvio divino”.
(…) “Quando certa manhã, Letério despertou de sonhos intranquilos, urgiu no seu íntimo um ímpeto incontrolável de dar as caras ao mundo. Estava pronto para abandonar o ostracismo, a escuridão do esgoto que o serviu de casa por longos anos; era tempo de desbravar com os sons e movimentos ao seu redor. De ingênuo Letério não tinha nada. Ele muito bem escutava, do seu acochado e circular tubo, a crueldade dos homens, o frenesi do bairro e os suplícios das mães. Ele também sentia medo, era um ser humano oriundo de dejetos, excrementos e meditação, recluso pela correnteza moral daquela decadente cidade que nos acostumamos a chamar de Manaus.”

Eis a precariedade da vida protagonizada pelo personagem central Letério. Uma alegoria às mazelas sofridas por toda a população que vive nesses lugares esquecidos, desassistidos, à margem de qualquer olhar ou sentimento humano.

UM GRANDE CIRCULAR foi publicado pela Temiporã Edições e terá seu lançamento acontecendo agora neste sábado, dia 15.08.2026 as 15 na Rua Rondônia, 19, Flores.
Recomendo.

 

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