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Marcos Souza

Resgate contístico: cinco motivos para ler Pé de Juma, conto de Arthur Engrácio

Escritor, crítico, jornalista e atuante no Clube da Madrugada, Arthur Engrácio completaria 99 anos hoje

Resgate contístico: cinco motivos para ler Pé de Juma, conto de Arthur Engrácio

Reprodução/Facebook Biblioteca do Escritor Arthur Engrácio

O conto Pé de Juma, presente no livro A vingança do boto (1995), de autoria de Arthur Engrácio (1927 – 1997), retrata o suspiro opressivo que foi a existência de Juvenal, um serviçal no seringal de sêo Ponciano, cujos pés, repletos de verrugas, aparentavam grotescamente um sapo cururu, dando-lhe o apelido de Pé de Juma. Sem mais delongas e sem querer ser um desmancha-prazeres, vamos aos cinco motivos.

 

1. Da aventura de um amor improvável

Pé de Juma “[…] foi ousado, reconhece. Fugir com a filha do patrão, tornando-a sua amante, ele um pobre-diabo, sem eira nem beira, fora muita temeridade!”. Afinal, como poderia um submisso submeter todos a coadjuvantes de uma aventura de amor? Entretanto, a bem da verdade, o estopim partira de Rosalva, a filha do patrão, era ela quem suplicara para que Pé de Juma a tirasse do barracão, onde era maltratada pelo pai. Pé de Juma tinha uma afeição por Rosalva, é inegável, presenteava-a constantemente com bichinhos que capturava nas saídas à caça. A ocasião fez a paixão. Eles fugiram, sofreram as consequências e pincelaram uma das centenas de histórias trágicas de amor inventadas pela literatura.

 

2. Dos cenários da época

Apesar da concisão característica dos contos do Engrácio, temos em cada história uma ágil sensação de teletransporte para o cenário descrito, autenticamente regional e telúrico. Em Pé de Juma, vamos aos forrós, dos tempos sadios e dançantes de Juvenal; ao cotidiano desolado pela fome e pelas privações no seringal; à fuga para uma barraca abandonada, com uma esteira velha no assoalho de paxiúba; findemos este tópico, de manhãzinha, quando Juvenal “voltava do curral com a panela de leite, Rosalva, mais a cozinheira velha, já estavam preparando as guloseimas que eram servidas diariamente no café da manhã: macaxeira cozida, tapioca, cuscuz de milho, banana frita e queijo coalho, que ela enfiava no espeto e assava na brasa”.

 

3. Das memórias valorosas frente à realidade terrível

Como dito, Pé de Juma, antes Juvenal, adquirira esse apelido por causa de uma doença que afligia seus pés com verrugas e um inchaço que nem benzedeira dava jeito. Mas Juvenal, não Pé de Juma, assim como as outras personagens carentes de se reconhecerem como tais, possuía um passado promissor, distante da decadência à qual pereceu. Quem diria, Pé de Juma fora, num passado não tão distante, Pé de Ouro, um jovem, disposto e potente, como todos os jovens devem ser, ele “fazia furor nos pagodes, com as cunhãs, que o disputavam afoitamente para uma dança. Esbelto e forte, seus pés, com a leveza da pluma, deslizavam lépidos pelos salões sob o olhar desdenhoso dos outros dançantes, que não tinham a sua destreza e a sua esturdice”.

 

4. Da hierarquia vigente nos seringais

Muitas das vezes, a dinâmica dos seringais é reduzida ao conflito do imigrante nordestino com o coronel de barranco, declinando as particularidades, as tais idiossincrasias, do todo que representa o “ciclo da borracha”. No entanto — e o conto magistralmente nos ambienta a isso — a narração traz, da mata ao barracão, um apanhado de personagens performando os seus miseráveis papéis, engrenagens de um sistema falido: Juvenal, o criado; Rosalva, a filha mais nova do patrão; Sêo Ponciano, o patrão; os capatazes; a cozinheira; as benzedeiras; os xerimbabos; todos compunham o universo recriado nas obras do autor, apresentando-nos o lugar, o homem e as crueldades verossimilhantes.

 

5. Da dimensão erótica

Fugidos com uma canoa e um ato de liberdade, Pé de Juma e Rosalva repousaram em uma barraca abandonada, estando ele em êxtase pelo atrevimento desconforme e ela sedenta por um desejo que a umedecia. Duas acepções se confrontam: uma temerosa com a proximidade da punição, a outra, esperançosa com a possibilidade de emancipação. Depois de muito remar, a madrugada pede um descanso ao corpo fatigado de Pé de Juma, mas, deitada ao seu lado, Rosalva “roçando-lhe provocadoramente os seios, as coxas quase todas de fora, impedia-lhe o descanso desejado”. Entre a hostilidade das personagens e da natureza daquele lugarejo, Pé de Juma hesitava diante do desfrute carnal, o gozo reprimido. Contudo, a moça “[…] foi tirando a roupa devagar, exibindo-lhe os encantos físicos que ele vira, uma vez, pela fechadura da porta do banheiro quando ela se banhava — e não mais os esqueceu”. No resfolegar delirante de um corpo desejoso, Pé de Juma ressuscita enquanto ribeirinho brutalizado pelo extrativismo das elites e se eterniza nas páginas de um extraordinário conto.

 

As cinco curtas provocações foram propostas, resta a vocês, leitores, o resgate, o encontro e o reencontro com a obra desse inestimável autor.

 

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Rita Alencar Clark 16/04/26 - 10:26

    Parabéns pelo resgate contístisco de Arthur Engrácio! Um legado inestimável da nossa literatura Amazonense. Engrácio foi , como ele mesmo se intitulava, um operário das Letras, e eu completo, grandioso.

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