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Marcos Souza

Quem lê, éle

Lula leu 40 livros enquanto esteve encarcerado, por outro lado, Bolsonaro, em todo esse período na cadeia, mesmo com o programa de remição de pena pela leitura, não se deu ao trabalho de ler nem a bula de seus remédios para soluço

Quem lê, éle

Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Passado o pleito presidencial do último domingo e a vontade de ingerir arsênico em pó como fez Madame Bovary, confrontamo-nos com a realidade adversa e desgostosa de sermos administrados por um idiota cabal. Ah, e, sim, compreendo que Manaus é majoritariamente bolsonarista, cujo reflexo se viu nas urnas. Compreendo também a sinuca de bico do artista que não quer desagradar o público local, parecer um isentão conciliador ou exibir uma crítica medíocre, aparentemente longe do aceno acadêmico e falsamente perto das massas. Por isso, aqui teremos uma crítica medíocre e com direcionamento à literatura.

Poderia nesta linha e nas debaixo me circundar de dados, tal qual a iniciativa de Jair Bolsonaro sob os mandos do ministro da economia Paulo Guedes de acabar com a isenção tributária para os livros, que ocasionaria um aumento expressivo no valor, ou seja, um desestímulo à leitura. Mas que utilidade tem os dados para essa gente, não é mesmo? O governo do pai de Flávio tinha tempo para qualquer pataquada, desde uma referência à estética nazista do ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, em janeiro de 2020 até a babação ao militarismo doentio das forças brasileiras e estadunidenses, só não tinha tempo para dizer uma frase de incentivo à leitura. Aliás, por que esperar algo de um milico defensor da ditadura militar e de toda censura e tortura oriunda dela? Quando havia discursos a respeito de cultura, eram aquelas frases de papagaio, com todo respeito ao animal (a ave): “Lei Rouanet, esquerdopatas, ideologia, comunistas, kit gay, mamata” …

Durante o governo de Jair Bolsonaro, a literatura era uma barata kafkiana na sala presidencial pronta para ser esmagada. Das suas bizarrices na literatura, umas das mais significativas de sua ideologia porca foi usar a Lei Rouanet para aquisição de livros sobre armas. Bolsonaro fez questão de vetar integralmente a Lei 13.916/2019, que versa sobre o “Concurso Nacional de Literatura Infanto-Juvenil” nas escolas públicas. O presidente Lula, seguindo o caminho inverso, retomou o investimento aos programas de incentivo à leitura e escrita, como na regulamentação da Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), na criação do MEC Livros, biblioteca virtual com mais de 8 mil livros digitais para acesso público e no compromisso com editais de fomento e sem tetos estéreis.

Não precisamos morrer de amores pela figura política do Lula para reconhecermos que é um disparate quem se diz defensor da leitura e da escrita votar em Flávio Bolsonaro para presidente.

Já imagino um leitor platônico me questionando: “então faremos o quê, bonzão, sendo que nas últimas pesquisas o Flávio continua na frente?”. No que respondo humildemente: sendo firmes em nossas posições políticas e esperando que nos próximos dois mil anos possamos superar o aprisionamento cognitivo do capitalismo, das religiões e das redes sociais, sem que até lá não surjam outros problemas mais alienantes que esses três. Todavia, para esse segundo turno porvir, analisemos a conduta pessoal das representatividades à esquerda e à direita, para definir um voto atrelado à literatura: Lula leu 40 livros enquanto esteve encarcerado, por outro lado, Bolsonaro, em todo esse período na cadeia, mesmo com o programa de remição de pena pela leitura, não se deu ao trabalho de ler nem a bula de seus remédios para soluço.

Por fim, reforço que estava longe de meus planos escrever um artigo em tom apelativo, eleitoreiro, tampouco julgo haver qualquer impacto a partir desse texto, a maior crise sanitária da história de Manaus, os discursos contra a Zona Franca e o negacionismo ambiental não causaram comoção suficiente aos retardatários manauaras.

Votemos no 13 nas urnas no dia 25 de outubro, sem mais.

 

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