
Em um dia de eleição marcado por filas e impaciência, uma cena simples revela uma questão maior: até que ponto estamos dispostos a respeitar o tempo de quem precisa de alguns minutos a mais para exercer sua cidadania? - Foto: Canva
Nesse domingo de eleição, trabalhei em uma seção eleitoral. Nessa manhã, muitos idosos compareceram para votar. Alguns precisavam de mais tempo diante da urna. Outros demonstravam insegurança, perguntavam, conferiam e tentavam compreender cada etapa. Havia quem simplesmente precisasse de alguns minutos a mais para concluir algo que, para outras pessoas, parecia tão simples.
A fila crescia.
E, com ela, a impaciência.
Ao final do processo, ouvi relatos de outras seções eleitorais onde a votação havia demorado mais justamente pela grande presença de eleitores idosos e pelas dificuldades que alguns encontravam para concluir o voto.
Algumas seções avançaram além do horário inicialmente previsto para o encerramento dos trabalhos. Houve cansaço, impaciência e reclamações.
Mas há algo nessa história que precisa ser dito com cuidado: a presença de muitos idosos não deveria ser tratada como um problema da eleição.
O problema não é o idoso ter ido votar.
O problema é uma sociedade que, diante da dificuldade de alguém, rapidamente procura um culpado, e muitas vezes escolhe justamente quem está exercendo um direito.
É compreensível que uma fila cansativa provoque irritação. As pessoas têm compromissos, estão cansadas e querem concluir sua votação.
O que não deveria ser compreensível é transformar a dificuldade do outro em motivo de humilhação.
Em meio àquele dia de trabalho, li uma frase de um mesário que também fazia parte do grupo responsável pelo processo eleitoral em nossa zona: “Também tem muita gente burra que se atrapalha e acaba atrasando.”
Essa frase me incomodou. Mais do que isso: a indignação que ela me causou é o que me leva a publicar este artigo.
Porque existe uma diferença enorme entre reconhecer que alguém está tendo dificuldade e chamar essa pessoa de burra.
Uma descreve uma situação.
A outra diminui uma pessoa.
E, quando essa pessoa é idosa, talvez devêssemos prestar ainda mais atenção ao que está por trás desse tipo de comentário.
Existe uma cultura da pressa que parece dominar nossos dias.
Precisamos responder rápido. Chegar rápido. Produzir rápido. Aprender rápido. Resolver rápido.
E, nessa lógica, quem não acompanha o ritmo começa a ser visto como problema.
O idoso que caminha devagar atrapalha.
A pessoa que demora diante da máquina atrapalha.
Quem não compreende uma tecnologia rapidamente parece atrasar o mundo.
Mas desde quando a velocidade passou a ser medida de inteligência?
Desde quando envelhecer virou uma espécie de inconveniente social?
Talvez esse seja um dos rostos mais silenciosos do etarismo: não necessariamente uma agressão explícita, mas a impaciência diante daquele que já não consegue acompanhar a velocidade que a sociedade considera normal.
E foi justamente nesse dia que uma cena pequena me ensinou muito.
Uma senhora concluiu seu voto. Quando saiu da urna, olhou para mim, agradeceu e disse:“Desculpa a demora.”
Aquilo apertou meu coração.
Porque ela não precisava pedir desculpas.
Ela não estava fazendo nada errado.
Estava apenas exercendo sua cidadania.
Talvez tenha percebido a fila atrás dela. Talvez tenha sentido que estava demorando mais do que os outros. Ou tenha carregado consigo o peso daqueles olhares impacientes.
Mas por que alguém deveria sair de uma urna pedindo desculpas por ter levado alguns minutos para exercer sua cidadania?
O que mais me doeu naquela frase foi perceber que, em algum momento, ela pode ter deixado de pensar que tinha um direito e passado a acreditar que estava incomodando.
E isso é muito sério.
O idoso não deveria precisar pedir desculpas por envelhecer.
Não deveria precisar correr para provar que ainda é capaz.
Não deveria ser constrangido porque sua mão demora mais para apertar um botão, porque sua memória precisa de alguns segundos para recordar um número ou porque uma tecnologia que parece tão simples para alguns ainda lhe causa insegurança.
Ele tem direito ao seu tempo.
E, sobretudo, tem direito à sua dignidade.
Nas eleições, esse direito ganha uma dimensão ainda maior.
A pessoa idosa não está simplesmente atrasando uma fila. Ela está exercendo cidadania.
Está dizendo, com sua presença, que ainda quer participar das decisões do país.
Muitas dessas pessoas votam há décadas, quando a realidade política brasileira era completamente diferente. Já enfrentaram filas em outras épocas, já preencheram cédulas, acompanharam mudanças na forma de votar e atravessaram diferentes momentos da nossa história.
Agora, diante de uma urna eletrônica, seis escolhas sucessivas, precisavam de um pouco mais de tempo.
E a democracia precisa caber também nesse tempo.
É claro que o sistema eleitoral precisa ser eficiente. A organização das seções pode ser aperfeiçoada. Os equipamentos precisam funcionar. As equipes precisam estar preparadas para orientar os eleitores. A acessibilidade precisa ser levada a sério.
Se muitas pessoas têm dificuldade para concluir o voto, isso também deve provocar uma discussão sobre como podemos tornar o processo mais acessível.
Mas existe uma diferença fundamental entre aperfeiçoar o sistema e culpar quem encontra dificuldades dentro dele.
A solução para uma fila demorada não pode ser constranger o idoso que está tentando votar.
Precisamos aprender a esperar.
Esperar o idoso.
Esperar a pessoa com deficiência.
Esperar quem tem dificuldade de leitura.
Esperar quem não domina a tecnologia.
Esperar quem precisa de orientação.
Esperar não deveria ser entendido como perda de tempo quando o que está em jogo é o direito de alguém.
E há algo que me parece ainda mais importante.
Nós nos esquecemos, com facilidade, de que o tempo também envelhece o nosso próprio corpo.
Aquele idoso que hoje demora diante da urna já foi jovem.
Um dia, muitos de nós estaremos no lugar em que ele está agora.
Talvez nossa mão também trema, nossa visão já não seja a mesma. E precisemos perguntar duas ou três vezes.
Talvez uma tecnologia que hoje dominamos deixe de ser tão simples.
E nesse dia, nós também precisemos que alguém espere.
É por isso que aquela frase ficou comigo.
Porque chamar de “burra” uma pessoa que está apenas tendo dificuldade é muito mais do que uma falta de delicadeza.
É uma forma de esquecer que ninguém permanece jovem para sempre.
E uma sociedade que não sabe respeitar seus idosos está, na verdade, ensinando às novas gerações que envelhecer é motivo de vergonha.
Eu prefiro pensar diferente.
Quero viver em uma sociedade onde o idoso não seja visto como alguém que atrasa a fila, mas como alguém que merece que a fila espere.
Onde sua dificuldade não seja motivo de riso, irritação ou desprezo.
Onde sua presença seja compreendida como parte da própria democracia.
E democracia não é apenas garantir que todos possam votar. É garantir que todos possam votar sem serem diminuídos por isso.
Porque um país que tem pressa demais para esperar seus idosos precisa parar um pouco e se perguntar:
que tipo de sociedade estamos construindo para quando chegar a nossa vez de envelhecer?
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