
Imagem: Pâmela Oliveira
A gente sempre se deixa levar pela literatura de pernas cruzadas, postura empertigada e mão no queixo, exalando sobrecarga intelectual, talvez porque nos acostumamos com aquela velha opinião formada sobre tudo. Ao mesmo tempo, nos cobramos para sermos mais receptivos, é lógico; do contrário, não receberemos o certificado na Assembleia Legislativa ou teremos uma de nossas obras mencionadas por sabe-se-lá-que-caralhos. Ah, mas a tentação às transgressões, como diria Antônio Abujamra, faz-nos enveredar pelas margens, para escapar de lugares-comuns como o amor ou a ausência dele, para ouvir aquilo que só é proferido a modo de sussurro.
E, hoje, sussurro delicadamente para ti, camarada: adentre A casa das bonecas e outras histórias, de Márcia Antonelli.
Antes de adentrarmos a casa das bonecas, serpenteando entre os postes, os contos e as crônicas, deparamo-nos com a figura de Cristal, uma “Afrodite com uma Odara linda entre as pernas”, uma personagem reluzente e cobiçada, seja pelos seus clientes, suas rivais ou pela violência à brasileira. Aliás, mesmo adentrando a casa ou coçando as costas no batente da entrada, ainda conseguimos espreitar a própria autora, gesticulando excessivamente pelas calçadas com um cara chamado Joe segurando uma Sony semiprofissional.
Pois é, camarada, caberá a ti definir se optas por seguir Márcia e sua prosa grandiloquente ou por permanecer na casa das bonecas, com Brenda, Pâmela, Bianca, Camila, Jack, Maíra e outras mais. O importante é não estagnar o movimento decadente de Manaus, uma vez que ela “é uma cidadezinha triste. Flácida. Uma puta velha e carente defendo a gorgonzola”.
Dentro desse cosmos criado por Antonelli, não são poucas as vezes em que somos apresentados a personagens cuja existência consiste em sobreviver nesta molestadora urbe. Veja bem, o Brasil é o país no mundo que mais mata pessoas trans e travestis há 18 anos consecutivos, de acordo com os dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O que angustia nas narrativas de Márcia, para além do mundo impiedoso lá fora, é que os destinos de suas personagens são quase sempre vinculados a uma dinâmica de violentadores e violentados; os sonhos, por assim dizer, necessariamente longe desta antessala do inferno chamada Manaus, são ticados tal qual um peixe espinhento: “No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi”.
Márcia Antonelli, para a felicidade de seus leitores, persiste nesse enfrentamento às hostilidades mundanas, porque, em referência à obra, ela muito bem poderia ser uma vendedora de pneus, atendente em uma bomboniere ou estar simplesmente fazendo outra coisa que não seja vender os seus panfletos como os fazia o russo Tolstói, quer dizer, seus livretos. Estes, assim como A casa das bonecas e outras histórias, estão disponíveis para aquisição, entrando em contato com a própria transcritora, em suas redes sociais, a saber: @marciaantonelli376 no Instagram e Márcia Antonelli Santana no Facebook.
Até.
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