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Colunista

Luís Lemos

A secura dos ossos

Em uma leitura marcada pelo realismo mágico e pela força da cultura amazônica, Encantado das Almas, de Sandra Godinho, conduz o leitor por uma narrativa sobre identidade, povos originários e a preservação da memória.

A secura dos ossos

Há tempos eu queria começar a ler Sandra Godinho. Tinha aqui em casa três de suas obras, guardadas como uma promessa de boa literatura. Agora, durante as férias, finalmente com aquele tempo generoso e sem pressa que o cotidiano costuma nos roubar, peguei os livros, sentei-me com calma e comecei a folheá-los. Bastaram poucos minutos para que os outros dois voltassem à estante: fui completamente fisgado pela atmosfera criada em torno de Encantado das Almas.

Ao abrir o livro, logo nas primeiras páginas, especialmente diante da passagem em que a autora afirma que “Encantado das Almas era o lado de dentro…” (p. 21), voltou-me à memória o encantamento que experimentei, anos atrás, ao ler Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Talvez resida aí à razão de este livro ter me capturado desde o primeiro encontro: a sensação rara e preciosa de entrar em um mundo onde o impossível não desafia a realidade, mas simplesmente a habita.

Para ser sincero, houve momentos em que me peguei sorrindo e pensando: estou lendo Sandra Godinho ou me perdi novamente em Macondo? Não porque uma obra imite a outra, mas porque ambas compartilham essa rara capacidade de transformar o insólito em algo perfeitamente plausível, quase cotidiano. É o tipo de literatura que suspende a passagem do tempo e faz o leitor esquecer das horas.

Mas, à medida que avancei pelos capítulos, Sandra Godinho foi encontrando seu próprio caminho diante dos meus olhos, e eu me deixei conduzir por ele. Sua narrativa é profundamente amazônica, marcada pelo ritmo dos rios, pela força da ancestralidade, pela presença dos povos originários e pelas dores que atravessam aquele território. Sua escrita possui a fluidez da água e, ao mesmo tempo, a firmeza da pedra: é poética sem perder a contundência.

Entre os aspectos que mais me tocaram na leitura está a construção da trajetória de Tainá Terra. Acompanhar sua busca por respostas, sua necessidade de compreender quem realmente é e de onde veio, levou-me inevitavelmente a pensar sobre nossas próprias raízes e sobre o quanto nossa identidade também é feita das memórias, silêncios e histórias daqueles que vieram antes de nós.

À medida que Tainá descobre seu passado, aquilo que parecia apenas uma busca individual transforma-se em algo maior: a responsabilidade de preservar a memória e continuar o legado de seu povo. Essa transformação da personagem talvez seja um dos momentos mais belos da narrativa, porque nos lembra que conhecer as próprias origens não significa apenas olhar para trás, mas também decidir o que levaremos adiante.

A intensidade dessa descoberta aparece de forma marcante no trecho: “A dor nos faz rastejar. […] Empalideci com a revelação do xamã, arrancada de súbito de uma irrealidade, arrancada de um susto infinito dentro de um instante” (p. 111). Ao ler essas palavras, senti o peso da revelação vivida pela personagem, como se, naquele momento, todo o seu mundo precisasse ser reorganizado para acolher uma nova compreensão de si mesma.

A leitura desse livro me impactou não apenas pelo enredo, pelas descobertas de Tainá Terra ou pela denúncia silenciosa da violência sofrida pelos povos originários, especialmente o povo Yanomami, mas também pela beleza melancólica de seu encerramento.

As últimas linhas carregam um sentimento de perda que ultrapassa os personagens e alcança diretamente o leitor: “Fomos diminuídos pelo cotidiano, pelo sufoco vagando pelos caminhos, pela banalidade de cinzas descendo às covas, pelo verbo entocado na língua que já é morta, que já é desfeita de carne e alma.” (p. 175).

Parabéns, Sandra, pela fecundidade literária e pela delicadeza, profundidade e sabedoria com que abordou o massacre de Haximu, transformando essa ferida da história em memória, poesia e resistência, para que a luta dos povos originários não seja esquecida e continue ecoando entre as novas gerações.

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