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Welton Oda

As duas Anas pretas

Entre a conquista de espaço na política e a tragédia provocada pela violência policial, as histórias de Ana Elisa Santos Silva e Ana Clara Machado expõem os desafios enfrentados pela população negra e reforçam o protagonismo das mulheres pretas no Brasil.

As duas Anas pretas

Duas Anas, duas histórias e uma luta contra o racismo e a violência

Há quem diga que “a coisa tá preta”! Ledo engano! Há séculos que a coisa tá branca, branca! Aliás, branca, rica, masculina, hetera e cis! Falo do domínio físico e territorial desta parte da população brasileira sobre o seu conjunto. No dito Estado Oficial e também no Estado Paralelo, dominado por traficantes e milicianos.

Se a coisa tá branca, bom para os brancos e ruim, muito ruim para as mulheres pretas, que sofrem dupla discriminação: machismo e racismo estruturais! Recebendo os piores salários, sofrendo as piores violências, tendo que se desdobrar para mostrar competência e ocupar espaços antes recusados a elas, é que nossa primeira Ana – Ana Elisa Santos Silva – tornou-se deputada federal por Minas Gerais, com mais de meio milhão de votos. Mas tenhamos consciência de nossos limites, o mesmo estado conferiu quase seis vezes mais votos para um jovem branco, riquinho e preconceituoso, Nikolas Ferreira.

Mais do que isso, bastou a deputada eleita começar a exercitar sua fala, seu direito de expressão, para que sofresse, quase imediatamente, uma reação asquerosa da machosfera: ameaças de morte, de estupro, xingamentos racistas e todo o tipo de violência. Ana, certamente, sabe que arrisca sua vida, falando ou em silêncio, denunciando ou calando. Nasceu com pele-alvo. A jovem estudante de Direito, superando muitas barreiras, ocupa espaços raramente ocupados por mulheres negras. Marielle Franco, do céu, certamente comemora mais esta conquista, tanto quanto a da eleição de sua irmã, a ex-Ministra Anielle Franco, para o cargo de Deputada Federal pelo Rio de Janeiro.

Nossa outra Ana, assim como Marielle, não teve o mesmo destino de Ana Elisa. Ana Clara Machado tinha 5 anos e brincava em frente à sua casa, em Niterói, em fevereiro de 2021, quando foi alvejada duas vezes pelo policial militar Bruno Dias Delaroli, o endemoniado que ainda dificultou o seu socorro. Foi só quando o colega de farda disse “pega a menina, você fez besteira”, que Bruno acatou a ordem. Ana Clara foi socorrida, mas faleceu no hospital. Bruno já havia sido condenado pelo homicídio de um motociclista, por motivo fútil, em 2014. No episódio do assassinato de Ana Clara, na decisão que condenou Bruno por mais esse crime, a juíza Monique Brandão enfatizou o relato de uma testemunha que afirmou que ele voltou ao local do crime para recolher as cápsulas do fuzil e atrapalhar as investigações.

É aí que entra o Senador e advogado Flávio Bolsonaro que, através de petição ao STJ, conseguiu atrasar o julgamento do assassino, que responde em liberdade. Agora, na reta final da campanha eleitoral de 2026, entram em campo as duas Anas, uma na terra e outra no céu. Entram também Anielle, Marielle, Alcione, Tereza Cristina, Benedita da Silva, Talíria Petrone, Marias, Conceições, mães de santo e uma legião de mulheres pretas, com toda a coragem que só tem quem tá cansada de patrão, de policial corrupto, de sinhozinho, de casa de branco.

O futuro anuncia que 2027 não será Ano, será Ana!

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