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Ailane Brito

O silêncio que apagou a luta negra

Nos livros didáticos, a abolição foi tratada como um “final feliz”. Mas a história real nunca foi um conto de fadas – e o silêncio sobre a resistência negra ainda ecoa nas desigualdades de hoje

O silêncio que apagou a luta negra

Devolver a voz a quem foi silenciado Foto: Ai Neo

Durante muito tempo, eu ouvi a mesma história. Na escola, o 13 de maio era apresentado quase como um conto encerrado com final feliz: a princesa assinou um papel, os escravizados foram libertos e o Brasil, enfim, tornou-se um país livre. As aulas seguiam rápidas, objetivas, quase silenciosas. Pouco se falava sobre dor, resistência ou luta. Pouco se falava sobre os próprios negros.

Só mais tarde percebi o quanto esse silêncio dizia muito.

Ao observar debates atuais sobre racismo, desigualdade e memória histórica, fica evidente que a forma como o passado foi ensinada moldou diretamente a sociedade de hoje. Muitos brasileiros ainda enxergam a abolição como um gesto de bondade da monarquia, e não como resultado de décadas de resistência negra. Isso não aconteceu por acaso. Foi uma narrativa construída e repetida durante gerações.

A verdade é que a abolição não começou em 1888. Antes da Lei Áurea, já existiam fugas, quilombos, revoltas, articulações políticas e diferentes formas de resistência contra a escravidão. Homens e mulheres negros lutaram pela própria liberdade muito antes de ela ser reconhecida oficialmente pelo Estado. Palmares, por exemplo, não foi apenas um refúgio; foi símbolo de organização, coragem e enfrentamento.

Mas durante muito tempo, as escolas preferiram resumir toda essa história a uma assinatura. E talvez esteja aí um dos maiores problemas. Quando se ensina que a liberdade foi um presente concedido pela elite, também se enfraquece a compreensão de que existe uma dívida histórica construída sobre séculos de exploração e abandono.

Depois da abolição, não houve inclusão social, distribuição de terras ou garantia de dignidade para a população negra. Houve exclusão. E os reflexos disso continuam visíveis hoje: nas periferias esquecidas, na violência, nas desigualdades sociais e no acesso limitado às oportunidades.

O mais preocupante é perceber que ainda há resistência em contar essa história de maneira completa. Fala-se da escravidão, mas muitas vezes não se fala do protagonismo negro. Celebra-se a Lei Áurea, mas pouco se discute sobre quem verdadeiramente construiu os caminhos da liberdade.

Revisitar essa narrativa não é apagar personagens históricos, mas devolver voz a quem foi silenciado. Porque a liberdade nunca foi fruto de um ato isolado. Ela foi construída com luta, resistência e coragem coletiva.

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