
Foto: Reprodução/IA
O Dia de Tiradentes não é apenas uma data no calendário. É uma narrativa em funcionamento.
Antes de tudo, um deslocamento necessário: não se trata aqui da escrita de uma historiadora, longe disso. Trata-se do olhar de quem pesquisa, de quem se aproxima das fontes, dos autores e das disputas de interpretação para tentar compreender o contexto histórico que sustenta certas certezas aparentemente consolidadas. E o que aparece, quando se observa com mais atenção, está longe de ser simples.
Não há festa popular, não há mobilização coletiva. Há apenas um feriado. Um intervalo. Um dia que passa sem confronto, e talvez seja exatamente essa a sua função.
Joaquim José da Silva Xavier não foi herói no seu tempo. Foi um entre outros, participante da Inconfidência Mineira — um movimento que, como demonstra Boris Fausto, esteve longe de representar uma revolta popular. Era uma articulação de setores da elite colonial, incomodados com a exploração da Coroa portuguesa, mas não necessariamente comprometidos com a transformação das estruturas sociais.
Não era um levante do povo. Era um conflito dentro das elites. Ainda assim, alguém precisava ser punido. E foi Tiradentes.
Sua execução não foi apenas repressão, foi pedagogia do poder. Um corpo exposto para ensinar obediência. Um exemplo para conter qualquer possibilidade de ruptura.
O que vem depois é ainda mais revelador.
Com a República, surge a necessidade de novos símbolos. Não bastava romper com a monarquia, era preciso construir uma nova legitimidade. Como analisa José Murilo de Carvalho, a República tratou de fabricar seus heróis. E Tiradentes foi escolhido.
Não por sua força política real. Mas por sua utilidade simbólica. Sua imagem foi redesenhada: barba longa, aparência serena, traços de mártir. Um Cristo laico, domesticado, desprovido de contradições. Um herói que não ameaça, que apenas representa.
É nesse ponto que a crítica precisa ser feita sem suavização. O que se celebra não é a luta. É a versão aceitável da luta. Tradições são frequentemente inventadas para garantir coesão social. No caso de Tiradentes, essa invenção cumpre uma função clara: produzir uma memória controlada, que substitui conflito por identidade e tensão por consenso.
A história, nesse sentido, deixa de ser campo de disputa e passa a ser instrumento de estabilização, exatamente como alerta Michel Foucault ao tratar das relações entre saber e poder.
O resultado é um herói esvaziado. Um símbolo que não convoca à ação, não provoca ruptura, não questiona as estruturas que permanecem. Ao contrário: ajuda a mantê-las.
Porque, enquanto se celebra um mártir do século XVIII, silenciam-se os conflitos do presente. Desigualdade estrutural, exploração do trabalho, concentração de riqueza — tudo isso permanece fora da narrativa. O feriado não aponta para essas questões. Ele as encobre. E isso não é um erro. É função.
O 21 de abril opera como memória disciplinada: reconhece um passado de resistência, mas impede que ele se conecte com as lutas atuais. Transforma um episódio histórico em símbolo inofensivo e neutraliza a narrativa.
Talvez o problema não esteja em Tiradentes. Mas na forma como foi apropriado. Porque um herói moldado para não incomodar deixa de ser ameaça e passa a ser ferramenta. E, nesse processo, a história deixa de ser possibilidade de transformação e se torna mecanismo de conservação.
O feriado permanece. A estrutura também. E o silêncio — esse segue cumprindo seu papel.
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