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Colunista

Ailane Brito

A resistência tem nome: Pedagogia

Em tempos de desvalorização, ser pedagogo é um ato político de permanência e compromisso com a humanidade

A resistência tem nome: Pedagogia

Foto: Acervo pessoal

“Aos pedagogos e estudantes de pedagogia que, contra a maré montante de tantas profissões glamourosas, não perderam o fascínio por este que é o mais apaixonante de todos os ofícios: produzir a humanidade no homem.” (Dermeval Saviani)

Ano passado, durante a Jornada Acadêmica da Ufopa, tive a honra de me sentar ao lado de Dermeval Saviani para uma fotografia. Naquele instante, eu já compreendia a importância intelectual e política de sua trajetória para a educação brasileira. Mas, hoje, ao ver uma postagem sua em homenagem ao Dia do Pedagogo, percebo que suas palavras atravessam minha própria caminhada de maneira ainda mais profunda.

A reflexão de Saviani ecoa com força neste 20 de maio, Dia do Pedagogo. Porque, em tempos em que tantas profissões são valorizadas pelo status, pelo lucro ou pela visibilidade, escolher a Pedagogia continua sendo, acima de tudo, um ato de resistência.

Produzir humanidade no homem talvez seja uma das definições mais profundas da educação. E também uma das menos compreendidas.

Existe algo extremamente simbólico quando Saviani fala da Pedagogia como um ofício que resiste “contra a maré”. Porque, em uma sociedade que glamouriza determinadas carreiras e desvaloriza o trabalho educativo, escolher ser pedagogo é, muitas vezes, escolher permanecer em um lugar de invisibilidade social, mesmo ocupando uma das funções mais essenciais para a existência de todas as outras profissões.

Antes do médico, houve um pedagogo. Antes do engenheiro, da advogada, da jornalista, do juiz, da enfermeira ou do cientista, existiu alguém na base do processo formativo ensinando as primeiras letras, incentivando perguntas, despertando pensamento crítico e construindo humanidade.

Toda profissão nasce, em algum momento, dentro das mãos de um educador. E talvez esteja aí uma das maiores contradições da sociedade brasileira: dependemos profundamente da educação para formar todas as áreas do conhecimento, mas seguimos tratando os profissionais da educação como se fossem secundários dentro do próprio projeto de país.

A Pedagogia ocupa a base da estrutura social. É ela que sustenta os processos de alfabetização, formação humana, desenvolvimento crítico e construção da cidadania. Entretanto, justamente por estar na base, frequentemente é invisibilizada, sobrecarregada e reduzida a tarefas burocráticas.

Nos últimos anos, essa realidade tornou-se ainda mais dura. A escola passou a ser atravessada por metas, índices e avaliações em larga escala que tentam transformar o processo educativo em números. O pedagogo, muitas vezes, deixou de ser reconhecido como intelectual da educação para se tornar operador de relatórios e executor de protocolos.

Enquanto isso, dentro das escolas, seguem entrando crianças marcadas pela fome, pela violência, pela desigualdade e pelo abandono social. E é justamente o pedagogo quem, diariamente, tenta reconstruir possibilidades de futuro em meio ao caos.

Ser pedagoga nunca foi apenas ensinar conteúdos. É lidar diariamente com as feridas de uma sociedade desigual e, ainda assim, encontrar forças para acreditar na educação como possibilidade de transformação.

Talvez por isso eu tenha tentado fugir da Pedagogia durante muito tempo. Eu via apenas o desgaste, a desvalorização e o peso dessa profissão. Mas a vida tem maneiras curiosas de nos conduzir exatamente para os lugares que precisamos ocupar.

Quanto mais tentei me afastar dessa formação, mais ela passou a atravessar minha forma de enxergar o mundo. Hoje compreendo que a Pedagogia não me ensinou apenas sobre planejamento, currículo ou avaliação. Ela me ensinou sobre gente. Sobre desigualdade, escuta, sensibilidade e responsabilidade social.

E talvez seja justamente essa dimensão humana que faz da Pedagogia uma profissão tão potente, mesmo quando insistem em diminuí-la.

No mês de agosto, minha turma de Pedagogia 2022 UFOPA campus Óbidos, viverá a tão esperada outorga. E pensar nisso também me emociona porque sei que cada colega carrega uma trajetória de resistência. Há mães, trabalhadores, pessoas que enfrentaram dificuldades financeiras, longas jornadas e inúmeros obstáculos para permanecer na universidade.

Foto: Acervo pessoal

Concluir essa formação, em um país que historicamente desvaloriza a educação, é mais do que alcançar um diploma. É afirmar que seguimos acreditando na transformação social mesmo diante de tantas tentativas de esvaziar a escola pública e o papel dos educadores.

Hoje entendo que não foi a Pedagogia que me aprisionou. Foi ela que ampliou minha maneira de compreender a sociedade, fortaleceu minha escrita, minha atuação crítica e meu compromisso com as pautas sociais que atravessam principalmente mulheres, crianças e populações historicamente marginalizadas.

Talvez eu tenha fugido da Pedagogia porque não sabia que ela exigiria tanto de mim. Mas talvez eu tenha permanecido exatamente porque ela me ensinou a não aceitar o mundo como ele está posto.

Porque, no fundo, ser pedagoga é isso: insistir na humanidade em tempos que tentam destruí-la. Ser pedagogo, hoje, é mais do que exercer uma profissão. É um ato político de permanência, resistência e compromisso humano em meio a uma sociedade que, cada vez mais, tenta esvaziar o sentido da formação crítica e da própria humanidade.

Parabéns aos que permanecem nas salas de aula, nos espaços não escolares e nas universidades, mesmo quando faltam condições, reconhecimento e respeito. Aos que insistem em educar em um país que tantas vezes trata a educação como discurso, mas não como prioridade.

Foto: Acervo pessoal

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