No dia 25 de março de 2026, na sede da B3, em São Paulo, ocorreu um episódio que merece mais debate público do que recebeu até agora. O governo federal realizou o primeiro leilão de uma floresta pública brasileira estruturado principalmente para gerar créditos de carbono. A área concedida foi parte da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia, e a vencedora foi a empresa Re.green, que terá o direito de administrar cerca de 59 mil hectares da floresta por 40 anos. A principal fonte de receita do projeto será a venda de créditos de carbono no mercado climático internacional.
A narrativa oficial é sedutora: restaurar áreas degradadas, captar recursos privados e ajudar o planeta a enfrentar a crise climática. Parece moderno, responsável e ambientalmente correto. Mas é justamente por trás desse discurso verde que faço um questionamento necessário: quando a floresta vira ativo financeiro, quem realmente está sendo protegido?
O que aconteceu naquele leilão não foi apenas uma política ambiental inovadora. Foi também um gesto político que escancara uma tendência crescente: a transformação da natureza em mercadoria. Agora, não se vende apenas madeira, minério ou terra. Vende-se carbono. Algo invisível. Algo que ninguém toca. Algo que pode ser convertido em crédito e negociado no mercado global como se fosse uma ação financeira.
Cada crédito representa uma tonelada de dióxido de carbono que supostamente deixou de ser emitida ou foi capturada por árvores. Empresas altamente poluidoras podem comprar esses créditos para “compensar” suas emissões.
Traduzindo para o português em termos diretos.: enquanto alguém polui em algum lugar do planeta, alguém paga para plantar árvores em outro lugar, e tudo fica equilibrado na contabilidade climática.
No papel, é elegante. Na prática, é profundamente questionável. Porque o mercado de carbono não reduz necessariamente a poluição global. Muitas vezes ele apenas redistribui a responsabilidade ambiental, permitindo que grandes emissores continuem operando quase da mesma forma.
O risco é transformar a crise climática em mais um negócio bilionário. E a Amazônia, mais uma vez, entra nessa história como território de experimentação.
Durante décadas disseram que a floresta precisava ser derrubada para gerar progresso. Depois disseram que a mineração traria desenvolvimento. Depois vieram as hidrelétricas. Depois o agronegócio. Agora surge uma nova promessa: a economia verde. Mas toda promessa econômica que chega à Amazônia costuma vir acompanhada da mesma pergunta que raramente é respondida: quem ganha e quem paga a conta?
Defensores do leilão afirmam que a floresta continua sendo pública. E juridicamente isso é verdade. A terra permanece sob domínio da União. Mas o direito de explorar economicamente os chamados ativos ambientais — como o carbono armazenado nas árvores — passa a integrar a lógica do mercado. Isso significa que a floresta deixa de ser apenas território ecológico e cultural. Ela passa a ser também um ativo financeiro global. E ativos existem para gerar lucro.
Outro detalhe pouco discutido é que o leilão teve apenas uma empresa participante. Um certame com concorrência mínima que mesmo assim abre caminho para expandir esse modelo para outras áreas de floresta pública. É evidente que a crise climática exige soluções urgentes. Restaurar áreas degradadas da Amazônia é uma necessidade real e inadiável.
Mas a história ensina que nem toda solução apresentada em nome da sustentabilidade realmente protege a natureza. Às vezes apenas muda o modelo de exploração.
A Amazônia não precisa de mais um ciclo econômico travestido de solução ambiental. Já vimos esse roteiro antes. Sempre chega embalado em promessas de progresso, desenvolvimento e modernidade — e quase sempre termina concentrando riqueza nas mãos de poucos, enquanto os povos da floresta seguem lutando para existir. O que a Amazônia precisa são políticas que fortaleçam quem vive nela, que respeitem os territórios e que tratem a natureza como patrimônio coletivo, não como ativo de mercado. Porque quando a floresta passa a valer apenas pelo preço do carbono, ela corre o risco de perder aquilo que sempre foi seu valor mais profundo: ser vida, território e futuro.
Leia mais:








