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Colunista

Luís Lemos

“Dança de Enganos”: Uma coreografia de silêncios e memórias

Em novo romance, Milton Hatoum conduz o leitor por um território instável onde a verdade não liberta, mas pesa como ferida

“Dança de Enganos”: Uma coreografia de silêncios e memórias

Esta resenha nasce da minha leitura atenta e sensível do livro “Dança de Enganos”, de Milton Hatoum, que me conduziu por caminhos marcados por silêncios, memórias e significados. Mais do que apresentar um resumo da narrativa, busco aqui registrar as impressões que o livro provocou em mim: suas inquietações, suas sutilezas e as reflexões que permaneceram mesmo após a última página. Trata-se, portanto, de uma leitura pessoal, atravessada por aquilo que a obra despertou enquanto experiência de leitura.

Desde as primeiras páginas, tive a sensação de estar entrando em territórios instáveis. Nada neste livro se oferece de forma direta. As histórias avançam em movimentos sutis, como quem dança evitando dizer o nome exato do passo. Hatoum não entrega verdades, ele insinua, provoca, faz pensar.

Os capítulos são atravessados por deslocamentos, perdas, silêncios e equívocos. Personagens que acreditam controlar a própria vida, mas descobrem, tarde demais, que estavam apenas reagindo. O engano do título não é truque narrativo: é condição humana. Engana-se com a verdade e com a ausência dela.

Enquanto lia, tive a impressão de que o livro exige atenção emocional mais do que intelectual. Não se trata de acompanhar enredos, mas de perceber atmosferas. Há sempre algo que escapa: uma palavra não dita, um gesto mal interpretado, uma memória que se impõe sem pedir licença.

Hatoum escreve com elegância contida. Nada sobra neste livro. Nada explica demais. Essa economia é o que mais dói. O leitor precisa aceitar que nem tudo se esclarece, assim como na vida. Algumas relações se desfazem sem alarde. Alguns afetos se revelam tarde. Alguns erros nunca se corrigem.

Em toda a obra, o que mais me marcou foi à presença do tempo, não o tempo cronológico, mas o tempo da lembrança, esse que reorganiza o passado conforme a ferida. “O tempo foi breve demais para revelar meu próprio engano”, escreve Hatoum, p. 33, 2025.

Em Dança de Enganos, o passado não passa, ele retorna, deslocado, exigindo sentido. “Eu ainda tinha um fio de descrença no que eu mais temia, mas esse fio foi rompido, e a descrença, dissipada” (HATOUM, 2025, p. 257). A narrativa não se constrói como relato fiel, mas como território instável, atravessado por emoções, silêncios e pela busca de compreender o que jamais se disse por inteiro.

Por fim, o que mais me chamou atenção foi perceber que, quando a verdade finalmente emerge, ela não chega como libertação, mas como um peso, quase como uma ferida que precisa ser curada. Dança de Enganos não consola o leitor, mas respeita sua inteligência. É um livro para quem aceita que a literatura não serve para organizar o mundo, serve para torná-lo mais verdadeiro. E isso, para mim, já é muito.

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