
Participantes do campeonato de 'Farmar Aura' no bairro Mauazinho, em Manaus — Foto: Fotos: Reprodução
O que era apenas uma trend nas redes sociais ganhou espaço fora das telas e virou competição em Manaus. A brincadeira “Farmar Aura”, popular principalmente entre as gerações Z e Alfa, reuniu crianças, adolescentes e adultos em um campeonato realizado na Zona Leste da capital amazonense.
A disputa aconteceu na sexta-feira (7), na praça do terminal da Avenida Arica, no bairro Mauazinho. Os participantes foram divididos em três categorias — infantil, adolescente e adulto — e precisaram conquistar o público com carisma, confiança, dança e movimentos que se tornaram virais na internet.
Em cada categoria, o vencedor recebeu R$ 300 em dinheiro. Os campeões foram Maria Pietra, de 5 anos, na categoria infantil; Guilherme Silva, de 15 anos, entre os adolescentes; e Mateus Yago, de 20 anos, na disputa adulta.
Trend da internet ganha versão presencial em Manaus
A expressão “Farmar Aura” nasceu no universo dos games e ganhou força nas redes sociais. A ideia é simples: demonstrar o máximo de “aura” possível — uma combinação de carisma, confiança, estilo e capacidade de chamar a atenção.
Na competição realizada no Mauazinho, os participantes utilizaram movimentos e referências que viralizaram entre os jovens, como o six seven e o passinho do Jamal.
Não existem regras oficiais para determinar quem tem mais “aura”. Na prática, ganha quem consegue envolver a plateia e provocar mais reações durante a apresentação.
Entre os competidores estava o estudante Samuel Gonçalves de Lima, de 16 anos. Ele contou que treinou alguns dos movimentos antes da competição e afirmou que entrou na disputa principalmente para se divertir.
“O que me motivou a entrar nesse campeonato foi por diversão. A gente vive outra geração, né? Esse é um método top pra quem quer se divertir mais. É tendência, atrai bastante os jovens hoje em dia. Todo mundo se diverte farmando aura, fazendo dancinhas, passinho do Jamal. Tem que aproveitar porque depois vêm outras novidades”, afirmou.
Para se preparar, Samuel praticou movimentos que fazem sucesso nas redes.
“Eu comecei a praticar o six seven e outras estratégias”, contou.
Evento também expõe falta de opções de lazer
Por trás da brincadeira, o campeonato também trouxe à tona uma questão enfrentada por parte da juventude em Manaus: a falta de espaços e atividades de lazer.
Para Samuel, iniciativas como essa oferecem uma alternativa para os jovens ocuparem o tempo livre, encontrarem os amigos e participarem de atividades coletivas.
“Aqui não tem muitas opções de brincadeiras. Muitos jovens acabam se envolvendo em coisas erradas. Esse campeonato é uma alternativa”, disse.
O organizador Verlison Santos contou que a ideia surgiu depois de observar crianças brincando com referências ligadas ao “six seven” durante uma ação de Páscoa.
Ele já desenvolve atividades sociais no bairro Mauazinho e decidiu, junto com amigos, transformar a tendência em um evento aberto à comunidade.
“Enquanto as crianças estavam na fila para entrar no brinquedo inflável, eu não entendia o que era o six seven. Fui pesquisar para entender e, pensando nelas, decidi junto com um grupo de amigos fazer esse evento para a comunidade”, relatou.
Críticas na internet ajudaram a aumentar a curiosidade
A popularidade do “Farmar Aura” também vem acompanhada de críticas nas redes sociais. Parte do público questiona o significado da brincadeira ou não entende as expressões utilizadas pelos participantes.
Para Verlison, entretanto, a polêmica acabou funcionando como uma espécie de divulgação espontânea.
“A gente acompanha os comentários na internet e sabia que era um assunto polêmico. Eu imaginava que seria um evento que iria abranger várias idades, desde os jovens até os adultos”, explicou.
Por que os jovens estão ‘farmando aura’?
O fenômeno não se resume a uma brincadeira virtual, segundo o sociólogo Luiz Antônio. Para ele, a tendência está relacionada à maneira como adolescentes e jovens constroem identidade e pertencimento.
O especialista explica que diferentes gerações sempre criaram seus próprios códigos, estilos e comportamentos. A diferença é que, atualmente, as redes sociais aceleram a disseminação dessas referências.
“Os jovens, para se afirmar, precisam negar a infância e também a vida adulta. Então, eles criam seus próprios códigos e comportamentos. Hoje esse processo é mediado pelas plataformas digitais, mas em outras gerações acontecia de outras formas”, explicou.
Segundo o sociólogo, compartilhar expressões, movimentos e referências cria uma espécie de identidade coletiva entre os jovens.
“Ao se encontrar nas redes sociais usando essas metáforas, essa garotada encontra uma forma de pertencimento. Vivemos uma contradição: as redes aproximam as pessoas, mas também estamos em uma sociedade extremamente individualista”, afirmou.
Luiz Antônio ressalta ainda que o comportamento não é exclusivo da geração atual. Ao longo da história, diferentes grupos de jovens utilizaram manifestações culturais para se identificar e se diferenciar.
“Não há uma diferença significativa entre os adolescentes e jovens de hoje e os de décadas passadas. Nos anos 1960, ouvir rock era uma forma de rebeldia e afirmação. Nas décadas de 1980 e 1990, o hip-hop cumpriu esse papel. Sempre existiram identidades sendo construídas pela juventude”, destacou.
Do celular para a rua
O campeonato realizado no Mauazinho mostra como uma tendência nascida nas redes sociais pode rapidamente ganhar espaço no mundo real.
Em Manaus, o “Farmar Aura” deixou de ser apenas uma expressão usada na internet e se transformou em uma atividade coletiva que reuniu diferentes gerações em torno de dança, desafios e entretenimento.
Mais do que uma competição, o evento mostrou como as novas tendências digitais podem ocupar espaços públicos, criar novas formas de interação e funcionar como alternativa de lazer para a juventude.
Leia também: ‘Farmar aura’: o que significa uma das principais gírias da geração Alfa e qual sua origem.
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