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Colunista

Marcos Souza

Por que escrever quando (quase) ninguém vai ler?

Os percalços de escrever, desilusões editoriais, o Prêmio Literário Cidade de Manaus e outras leseiras

Por que escrever quando (quase) ninguém vai ler?

Foto: cena do filme Quincas Berro d’Água, de 2010

Após umas generosas horas assistindo à sequência inesgotável de vídeos curtos nas redes sociais, você decide retomar a leitura daquele livro esquecido no vão entre a cama e a parede. Ao abrir, não são imagens sonoras e agitadas que você visualiza, mas um edifício de palavras construído por um pedreiro da escrita. Você é apenas um socialista atordoado tentando derrubar o seu muro de Berlim, com os punhos e os ideais feridos. Esquecestes de onde havia parado? Pois o sono que vem é a tempestade que enxota o pedreiro e ameniza a ardência das feridas. Você desperta, atrasado em suas obrigações e prometendo continuar quando estiver menos cansado. Mas, puta que o pariu, o descanso pleno só acontece com o advento da morte. E por mais que o inferno certamente não seja mais quente que Manaus, ainda assim haverá outras distrações a nos preocupar, cada qual conforme os seus pecados.

Quando comecei a publicar meus textos, tive como alicerce uma desgracenta pandemia mundial estourando sobre nossas cabeças. A depressão individual e coletiva, as mortes, as desilusões, as amarguras e o caos obrigaram os fracos a encontrarem um refúgio imediato. Bebidas alcoólicas, drogas ilícitas e deleites carnais? Não, no meu caso foi a senhora poesia. Achei que seria a via mais fácil dentro da literatura — ledo engano. A qualidade das minhas poesias poderia hoje facilmente me levar a procurar refúgio nas três opções citadas. Pelo menos isso me deu facilidade para identificar poetas medíocres. Um contista ou romancista pode até esconder sua inaptidão em uma ruma de parágrafos, mas um poeta nunca poderá esconder sua mediocridade em um verso sequer. O mesmo caso se aplica aos microcontos, ainda mais por esse frenesi no consumo estimulado pelas redes sociais. A questão é que com a leitura atenta e frequente conseguimos diferenciar a elegância arguta de um microconto de Mayanna Velame do texto de um tolo arrivista que só quer materializar em literatura a sua preguiça maquilada como dom artístico.

Um tempo depois me encontrei nos contos. Escrevi meu primeiro livro, Coisas do futebol manauara, em 2022, pela Caravana Grupo Editorial. A Caravana, editora com sede em Minas Gerais, é uma excelente editora para quem não entendeu aquela máxima popular: Todo dia saem de casa um malandro e um otário. Quando eles se encontram, sai negócio.. O desgosto foi tanto que no meu livro seguinte, Cidade decadente: personas (2024), decidi fazer tudo de maneira independente. Só a partir de então percebi como o cambaleante mercado editorial fica à mercê de muitos canalhas. Bem, se um dia eu lhe indicar a Caravana para publicar seu original, é porque eu te odeio profundamente. Enfim, sobre o mercado editorial, cheguei mesmo a escrever um artigo acerca desse cenário, chamado “Para todo escritor desavisado, há uma ‘editora’ oportunista: notas sobre a exploração dos escritores pelo mercado editorial e seus patéticos prêmios literários”.

Aproveitando o ensejo das premiações literárias, devo dizer que de 2020 para cá, consegui boas colocações em vários concursos literários espalhados pelo país. A maioria não passou de uma coceira gostosa, como quando um mucuim se acomoda em nossas virilhas. Os certames de maior relevância sempre suscitam um friozinho na barriga ao sair o resultado, apesar de que a derrota é a normalidade. Além do mais, é perigoso quem escreve apenas para concurso, pois escrever e competir são verbos que não casam, talvez no máximo resulte num caso extraconjugal. O escritor deve vigiar sem pestanejar as soluções tentadoras oferecidas por oportunistas ou por gente que se leva muito a sério.

Ainda sobre concursos literários, o de maior retorno financeiro que arrematei foi o Prêmio Literário Cidade de Manaus, por duas vezes seguidas, e o tratamento da primeira vez foi o mesmo de quem chega tarde para almoçar em um restaurante em que as cadeiras estão suspensas nas mesas e o chão está sendo enxaguado. Na edição de 2024, além do pagamento do prêmio, não houve qualquer nota de rodapé, menção, publicação da obra contemplada ou qualquer aceno de memória. Compreendo, é claro, que a prefeitura vá direcionar os seus esforços para as alas culturais mais populares e eleitoreiras, que o prêmio é executado mais por diligência programática do que por qualquer interesse genuíno em valorizar a literatura amazonense. Os intermediários desse processo são apenas cúmplices omissos. Escritores, leitores e simpatizantes precisam pautar com seriedade um crítico diálogo sobre as potencialidades do prêmio literário, deixando de lado o individualismo, o provincianismo e o peleguismo. Se porventura não tivermos a mínima coragem para reivindicar melhorias, será melhor assumirmos de vez a bandeira do derrotismo, hasteando orgulhosamente o lema “O Norte existe”.

Afinal, voltemos à pergunta inicial: por que escrever quando (quase) ninguém vai ler? Com uma nota de explicação ao “quase”, já que supostamente meia dúzia de gatos pingados leem o que escrevo. Pois bem, é fácil notar que esse artigo não tem pé nem cabeça, um devaneio total. Sóbrio escrevo; com sono, publico. Quer dizer, a maior parte do que escrevo mofa em uma pasta qualquer no computador, em notas e em projetos largados. Ou seja, nem sempre com sono eu ouso publicar. Sinto sono e é um sintoma de que amanhã irei compor novamente a massa de operários… Retomemos: mesmo que ninguém leia essas palavras, assumo para mim o prazer incontornável que é a liberdade de criar e destruir, de brincar com as palavras, de ser ficcional em vida. Escrever para agradar os mitos, os cânones ou as tradições é disputar espaço na cova de leões domesticados. Escrevo para preencher um vazio que vem não sei de onde. E se um dia eu não puder escrever, estou morto. Morto não no estilo Brás Cubas ou Quincas Berro D’água, morto no estilo morto mesmo.

 

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3 Comentários

1 Comentário

  1. Mayanna 24/03/26 - 18:48

    Escrevemos porque somos seres inacabados. Escrevemos porque não há qualquer tipo de justificativa. Escrevemos porque sabemos da finitude que nos aguarda…
    Sim, escrevemos! Sempre há um leitor na espreita que se lê nas entrelinhas ou no explícito de um texto, que nasce, sabe-se lá como e por quê?? Eis, o mistério da criação…

    • Breno 24/03/26 - 21:59

      Além do tom irônico (que eu adoro), considero relevante essa abordagem sobre a verdadeira natureza do mercado editorial aqui no país. Realmente, não temos a possibilidade de fácil expansão, quem escreve visando lucro ou fama já pode começar a repensar a atitude de criação. Até existem produções sendo feitas a todo momento, mas parece que se não for abençoado por uma Companhia das Letras, o esquecimento será garantido. Ou é o escritor por ele mesmo ou então permanecerá em um deserto árido esperando por uma gota de chuva. Como nós, meros mortais, podemos motivar a leitura e a escrita quando todo um sistema age contra a valorização dessas práticas? Talvez hoje em dia seja ainda mais complexa a questão visto o imediatismo advindo das tecnologias da informação. Essa ansiedade doente em querer estímulos rápidos não ajuda nem um pouco a situação e infelizmente a previsão para o amanhã não é animadora. De qualquer forma, que tenhamos esperança por dias melhores. Parabéns, Marcos, pelo texto.

  2. Grace Cordeiro 25/03/26 - 10:44

    Mano, entendo os percalços de quem se mete a escrever. Então tá, tem as pessoas que escrevem por necessidade, por tentar respirar em meio ao caos da vida, e outras por ego. É claro que as primeiras sofrem mais. Mas, precisamos também das que escrevem por ego, pois, elas movimentam a “cena literária” de uma região. Especificadamente, aqui em Manaus, no meu insólito pensar, as pessoas se dividem em grupos, e são como o Rio Negro e Solimões, difíceis de ajuntamento. O jeito é continuar, tirar o restante das forças do amago e continuar a ticar o jaraqui.

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