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Colunista

Ailane Brito

Quando as mulheres ocupam a palavra: feminismo, protagonismo e transformação na universidade

O evento foi resultado da iniciativa de discentes do curso de Pedagogia da turma

Quando as mulheres ocupam a palavra: feminismo, protagonismo e transformação na universidade

No dia 19 de março, no Mini Auditório da Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa campus Óbidos, ocorreu a palestra “Protagonismo e Empoderamento Feminino: Vozes que Transformam Espaços”, um encontro que reuniu professoras, estudantes e comunidade para discutir desigualdades de gênero e o poder transformador da presença feminina em diferentes espaços.

O evento foi resultado da iniciativa de discentes do curso de Pedagogia da turma 2023, que reconhecem que a universidade deve ser um espaço vivo de debate e transformação social. Essa mobilização também dialoga com o programa de extensão DIEMO – Diversidade, Inclusão, Educação e Memória na Amazônia Obidense, coordenado pelo professor Doutor Wanildo Figueiredo de Sousa, que busca ampliar reflexões sobre identidade, memória e justiça social na região.

Durante as discussões tive a honra de atuar como mediadora, acompanhando um debate marcado pela escuta ativa, pelo diálogo crítico e pela troca de experiências entre três professoras cujas trajetórias acadêmicas são referência em educação, ciência e história.

Participaram do evento:

Elis Regina Corrêa Vieira – Doutora em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA);

Iza Luciene Mendes Regis – Graduada em Licenciatura em História e Mestra em História Social, docente do Instituto Federal do Pará (IFPA), campus Óbidos.

Carinne de Nazaré Monteiro Costa Santa Brígida – Doutora em Química Biológica, Mestra em Genética e Biologia Molecular e Licenciada em Biologia;

Durante a palestra, a professora Iza Luciene destacou a importância de entender o feminismo em sua verdadeira dimensão. Ela explicou que, ao contrário do que muitas vezes é propagado na mídia ou em discursos simplificados, o feminismo não é um movimento contra os homens, mas uma luta para acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão das mulheres.

Iza ressaltou que muitas mulheres relutam em serem percebidas como feministas, porque a palavra ainda carrega preconceitos e interpretações distorcidas.

Percebe-se realmente que o termo ainda é muitas vezes distorcido no cotidiano, aparecendo como sinônimo de “superioridade feminina” ou “guerra entre os sexos”. Na prática, porém, o feminismo se manifesta em situações simples, mas concretas: exigir igualdade salarial, questionar responsabilidades desiguais no trabalho doméstico ou garantir segurança e respeito no espaço público.

No contexto universitário, afirmo que feminismo também significa valorizar a participação e as ideias de estudantes e docentes mulheres, garantindo igualdade de oportunidades em projetos, decisões pedagógicas e crescimento acadêmico.

A professora Elis Regina trouxe ao debate a dimensão prática e simbólica do protagonismo feminino. Ela destacou como mulheres que ocupam espaços de liderança — na ciência, na educação, na política ou em movimentos comunitários — inspiram outras mulheres, criando redes de empoderamento e sororidade.

Elis mencionou a obra da Bell Hooks, afirmando que é um livro que ajudou muito em sua trajetória como mulher empoderadora. Ela reforçou que cada conquista feminina, por menor que pareça, reverbera na comunidade e contribui para romper padrões históricos de invisibilidade. Exemplos concretos de liderança feminina mostram que o empoderamento não é apenas individual, mas coletivo, fortalecendo futuras gerações de mulheres que aprendem umas com as outras.

A professora Carinne destacou a questão biológica e social do gênero. Segundo ela, desde o nascimento, a mulher é frequentemente tratada como o “sexo frágil”, uma percepção que começa quando a mãe descobre que terá uma menina e se reflete em comportamentos, expectativas e cuidados diferenciados. É nesse processo precoce que, muitas vezes, começam a ser construídos os estereótipos de inferioridade e as bases do ódio contra a mulher, que se manifestam em desigualdades, assédio e discriminação ao longo da vida.

Carinne também destacou a importância da educação desde a infância para a construção da igualdade de gênero. Ela citou o livro Para educar crianças feministas: um manifesto, da escritora Chimamanda Ngozi Adichie, e trouxe para o debate mais de dez sugestões práticas do livro para aplicar no cotidiano escolar e familiar. Entre elas, estão incentivar meninos e meninas a compartilhar tarefas domésticas, valorizar opiniões de todas as crianças em sala de aula, evitar estereótipos de gênero nos brinquedos e nas brincadeiras, ensinar sobre consentimento e respeito, e mostrar exemplos de mulheres e homens que atuam de forma igualitária em diferentes espaços. Para Carinne, essas orientações não só promovem uma reflexão sobre desigualdades históricas, mas também fornecem ferramentas concretas para que crianças cresçam com percepção de igualdade e respeito mútuo, alinhando educação e feminismo de forma prática e transformadora.

Participar de um evento como este e atuar como mediadora do debate foi uma experiência profundamente enriquecedora. Estar à frente das reflexões, ouvir vozes tão experientes e inspiradoras, e conduzir a discussão sobre feminismo, protagonismo e igualdade me permitiu perceber como a atuação feminina, dentro e fora da universidade, pode transformar espaços, influenciar decisões e inspirar outras mulheres a ocupar seus lugares de poder.

Mais do que aprendizado pessoal, momentos como este mostram que a participação ativa das mulheres fortalece a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária, onde o respeito, a valorização da diversidade e o reconhecimento das capacidades femininas se tornam princípios presentes tanto na vida acadêmica quanto na comunidade. Esse engajamento reafirma que cada ação de protagonismo feminino contribui para transformar relações, instituições e oportunidades, mostrando que a mudança social começa quando mulheres têm voz, visibilidade e espaço para agir.

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