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Militares pressionam Lula por quase R$ 1 trilhão em investimentos até 2040

Reunião no Planalto expôs demandas fragmentadas das Forças Armadas sem estudos detalhados; presidente pediu aprofundamento técnico e evitou compromissos

Militares pressionam Lula por quase R$ 1 trilhão em investimentos até 2040

Foto: IA Neo - Norte em Foco

A reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os chefes das Forças Armadas, realizada no último dia 15, marcou uma mudança de patamar no debate interno sobre defesa nacional que agora segue sob a lógica da ameaça constante dos EUA, aliado histórico dos miliares brasileiros.

O encontro foi precedido por uma série de conversas reservadas, ainda no início do mês, nas quais comandantes militares transmitiram a auxiliares do governo avaliações sobre o ambiente internacional conforme noticiado pelo ICL Noticias.

Participaram da reunião o comandante do Exército, general Tomás Paiva; o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen; o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Marcelo Damasceno; e o ministro da Defesa, José Múcio. Cada comandante expôs um diagnóstico próprio junto com uma lista de exigências.

Os militares apresentaram ao presidente um cálculo preliminar que aponta para a necessidade de cerca de R$ 800 bilhões em investimentos até 2040. O valor, ainda distante de um plano fechado, não foi apresentado com base em um estudo estruturado ou em um planejamento integrado das Forças Armadas.

Estimativa sem base concreta
Trata-se, segundo relatos, de uma estimativa construída a partir da percepção individual dos comandantes sobre as necessidades de cada Força, sem detalhamento público sobre quais projetos, capacidades ou programas seriam contemplados. Isso significa que o montante pode ser tanto maior quanto menor, já que não houve a apresentação de critérios objetivos, cronogramas ou destinação específica dos recursos.

De acordo com esses relatos, o objetivo dos alertas não era anunciar uma ameaça imediata, mas chamar atenção para o fato de que o país dispõe hoje de margem limitada de resposta em cenários de maior tensão. Essa percepção passou a sustentar, dentro do governo, a defesa de uma reorganização das prioridades em defesa, com foco em capacidades consideradas críticas.

Parte desse debate já chegou ao Congresso Nacional, que aprovou recentemente um instrumento para viabilizar cerca de R$ 30 bilhões em investimentos em defesa ao longo de seis anos. Internamente, o montante é visto como um avanço institucional, mas insuficiente diante das necessidades apresentadas aos presidentes.

Segundo interlocutores, Lula ouviu as exposições, pediu aprofundamento técnico das informações e evitou assumir compromissos imediatos.

Demandas fragmentadas
Para Piero Leirner, doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor titular do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que estuda temas ligados a militares, guerras e hierarquia, o encontro evidenciou um problema recorrente na relação entre os comandos militares e o poder civil.

“Cada um dos comandantes foi apresentar a sua listinha separadamente, a demanda da Aeronáutica, a da Marinha e a do Exército”, afirmou. Segundo ele, em vez de uma apresentação integrada, articulada pelo Ministério da Defesa, o presidente recebeu demandas fragmentadas, levadas separadamente por cada Força.

Na avaliação de Leirner, a reunião deveria ter sido conduzida a partir de uma lógica de interoperabilidade, com Exército, Marinha e Aeronáutica pensando conjuntamente uma estratégia nacional de Defesa. “Essa é uma reunião que deveria passar pelo ministro da Defesa, pensando as três Forças como uma coisa só, apresentando isso de forma integrada ao presidente”, disse.

O que se viu, porém, foi a reprodução de uma dinâmica burocrática, em que cada comandante atua para garantir seus próprios interesses institucionais, sem uma visão integrada do papel das Forças no Estado brasileiro.

Esse padrão, segundo o pesquisador, revela o peso de uma cultura organizacional marcada por rotinas rígidas e por uma compreensão fragmentada do planejamento estratégico. “A gente está num grau de burocratização e de rotina dentro das Forças Armadas que é muito sério. Eles não estão conseguindo sair dos mesmos parâmetros”, avaliou.

Para Leirner, o debate sobre orçamento acaba capturado por essa lógica, quando poderia ser enfrentado de outra forma. Ele avalia que, mesmo sem aumento significativo de recursos, um planejamento mais racional, baseado em operações conjuntas e na redefinição de prioridades, poderia produzir resultados mais eficientes. “Talvez, com o mesmo orçamento, se houvesse um planejamento interessante e operações conjuntas das três Forças, não fosse necessário pedir tanto”, afirmou.

Na leitura do especialista, a insistência na expansão de estruturas e unidades pelo território nacional nem sempre dialoga com as reais vulnerabilidades do país. “Talvez o problema das nossas vulnerabilidades não seja uma ação voltada para dentro, mas uma estratégia pensada para fora”, disse.

Para ele, os desafios estratégicos do Brasil exigem uma visão mais voltada ao ambiente externo e ao posicionamento internacional do país, e menos à reprodução automática de modelos internos. Esse descompasso, afirma, ajuda a explicar por que o debate sobre Defesa reaparece ciclicamente associado a pedidos por mais verbas, sem que haja uma revisão profunda do modelo adotado pelas Forças Armadas.

(*) Com informações do ICL

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