
"Rasgada ao Meio": livro de Márcia Antonelli expõe a brutalidade da vida sem máscaras e atravessa leitores em Manaus
Conheci pessoalmente Márcia Antonelli durante o Festival Literário do Centro, na Rua Barroso, em junho de 2025. Eu já acompanhava sua escrita e admirava a intensidade com que transformava a realidade, as ruas, a cidade de Manaus e a própria vida em literatura. Naquele dia, ela lançava Rasgada ao Meio. Comprei o livro, pedi um autógrafo e comecei a leitura ainda no calor do encontro.
Li o livro quase de um só fôlego. A escrita de Márcia Antonelli não permite distância confortável: ela prende, inquieta e atravessa o leitor. Seus contos carregam dores, memórias e personagens que parecem sair diretamente das margens da vida, como se cada página trouxesse algo vivido e não apenas imaginado.
O que mais me chamou atenção foi à coragem da autora. Ela escreve sem suavizar as feridas humanas, conduzindo o leitor para cenas intensas, desconfortáveis e profundamente humanas. Em muitos momentos, a narrativa parece abandonar qualquer preocupação com delicadeza para revelar a brutalidade da vida em estado cru. Isso aparece de maneira marcante no trecho em que a narradora afirma:
“O medo verdadeiro é algo que um dia se vence, já dizia minha mãe Eunice. De modo que não tive escolha outra vez. Mirei bem os ovos brancos e veiúdos do meu inimigo e parti naquela direção. O alvo parecia mais fácil. E de fato foi. Ele olhava pra mim ajeitando sua jugular. Ele não esperava aquela reação. Não mesmo. Avancei com muita raiva em sua direção e abocanhei com precisão suas duas bolas inertes. Meus dentes cravaram fundo no tecido genital rugoso. Ele gritou. Sentiu muita dor.” (p.191)
Ao terminar de ler esse trecho, fica evidente que Márcia Antonelli constrói uma literatura que não procura suavizar a violência vivida por muitas mulheres, mas revelar sua brutalidade sem máscaras. A cena, marcada pelo medo, pelo instinto de sobrevivência e pela reação extrema diante de uma possível violência sexual, expõe uma personagem que luta, antes de tudo, para salvar o próprio corpo e preservar sua dignidade. Sua escrita incomoda justamente porque nos obriga a encarar realidades que a sociedade, muitas vezes, prefere fingir que não existem.
No dia seguinte, já na escola, ainda impactado pela leitura e pelo autógrafo que recebi da autora de Rasgada ao Meio, comentei com entusiasmo sobre aquele encontro com meus colegas de trabalho. Uma professora de português, que, assim como eu, ama literatura, pediu-me o exemplar emprestado, dizendo que também queria conhecer a escrita de Márcia Antonelli. Entreguei o livro com certa relutância, com medo de não receber de volta algo que era verdadeiramente importante e precioso para mim.
Nove messes depois, em março de 2026, o exemplar voltou para as minhas mãos. Entre suas páginas, encontrei um bilhete escrito pela professora. Nele, ela dizia que aquele era “um tesouro da nossa literatura” e confessava nunca ter encontrado uma autora amazonense como Márcia Antonelli. Foi então que percebi que a experiência que tive com o livro também havia alcançado minha colega de trabalho.
Aquele bilhete me fez entender que Rasgada ao Meio não é apenas um livro que se lê e depois se esquece. É uma obra que permanece. Alguns livros terminam na última página; outros continuam acontecendo dentro da gente, como uma inquietação que insiste em permanecer viva. O de Márcia Antonelli pertence a essa segunda categoria: livros que deixam marcas silenciosas e fazem o leitor retornar diferente da leitura.
Por fim, a escrita de Márcia Antonelli não oferece conforto nem falsas delicadezas. A autora expõe as contradições humanas, a violência, os medos e as feridas sociais sem tentar suavizá-los para agradar o leitor. E é justamente aí que reside à força de sua literatura: ela nos obriga a encarar aquilo que muitas vezes preferimos esconder. Quem lê Rasgada ao Meio dificilmente sai intacto, porque, em alguma medida, também sangra por dentro.
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