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Colunista

Marcos Souza

O limiar das fendas: os milímetros poétTicos que separam um tezinho de um tezão

Uns punhados de anotações e devaneios advindos dos versos de Douglas Laurindo

O limiar das fendas: os milímetros poétTicos que separam um tezinho de um tezão

Douglas Laurindo. Foto: Arquivo pessoal.

Certa feita, Carlos Drummond de Andrade escreveu sob calorosos arrepios em seu cangote: boca de outro, que ris de mim,/ no milímetro que nos separa,/ cabem todos os abismos. Ao relermos os versos de Laurindo, vislumbramos semelhantes abismos, que, em certa medida, refletem a nossa própria imagem, esmaecida pelas filosofias, pelos desejos e pelas recordações.

Passado o primeiro parágrafo da resenha, pedante e necessariamente chamativo, soltemos os cães para ladrarem sob o umbral do portão aberto. O limiar das fendas (2022) é, entre diversas definições prováveis, uma obra que subverte a velha opinião formada sobre tudo. Expliquemos do princípio. Em gênesis, o poeta deita o solado do pé esquerdo na porta das convenções morais, heteronormativas e, sobretudo, religiosas:

 

no princípio, foi lilith e gael,

mulher e bicha expulsas do paraíso

por razões eróticas.

posicionar-se implica fato e falo. […]

 

Laurindo faz um resgate histórico contundente às opressões sofridas pela comunidade LGBTQIAPN+, representada pelas pessoas de destinos crudelíssimos. Hasteia em protesto as flâmulas com os rostos e corpos violentados, conforme posto nas figuras de Itaberli carbonizado, Dandara apedrejada e Tibira do Maranhão, morto por bala de canhão. E se fala dos corpos violentados, também fala dos violentadores, que possuem risos estridentes e agem em bandos, tal como descritos em hiena presidencial:

 

[…] quando incumbida da limpeza nas redondezas,

a tropa carnívora sai em busca de corpos desencaixados

de toda barbárie, farsa e padrão antiético, repassados em abate,

entrevista e repressão diária. […]

 

Essa repressão diária ricocheteia do contexto geral — histórico, violento e moralista — para o cotidiano de seus semelhantes; ou seja, Laurindo não fez esse manuscrito para si ou sobre si, mas para espelhar os processos de identificação, aceitação e resistência dos seus pares, como se lê em formação do imperativo:

 

[…] entendi que seja homem,

do imperativo afirmativo,

eu sempre fora.

não o homúnculo perverso de peito estourado,

mas a bicha vaiada da pele rasgada.

 

Ocasionalmente, essa sincronia de morder e assoprar dá origem a uma espécie de ressentimento, suplantando a família, a sociedade, a política e chegando, enfim, à gênese:

 

[…] Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu poderia morrer

se sabias que poderia ser morto. […]

 

Pero não se pode, de modo algum, revisitar os versos de Laurindo sem esbarrar com a presença fálica, erótica e dionisíaca de gael. gael é seis, e eu nove. Há de se imaginar até que se refere a um espectro, metalinguístico, que nos acompanha a cada estrofe, pedindo a sua vez. O poeta está faminto, o poeta come o poema e a si, entretanto, gael não, gael está sempre insaciável:

 

[…]

engulo-o no íntimo,

recolho-me ao ócio

garanto retorno

de gael antíloque.

 

Uma resenha demasiada em citações diretas, decerto, mas é que, às vezes, um punhado de versos vale mais que mil críticas. Aliás, aproveitando o ensejo, destaco os versos do meu poema predileto, o filho pródigo, um autêntico arranjo daquilo que justifica a poesia como o néctar dos cultuadores de saudades:

 

[…]

retorno à minha casa

não como houvesse dado

o dos poucos bens herdados

mas para que lembre aqueles

em ausência das partidas: […]

 

O limiar das fendas acaba sendo, ao final e talvez, um relato vívido dos afetos, que seduz os leitores e os convida para os próximos versos, como se um dependesse intrinsecamente do outro para lapidar os cuidadosos traços de uma escultura de rocha ereta. Enfim, as tentativas de definir uma ramificada obra quase sempre descambam numa verborragia confusa, contudo, a noção particular deste manuscrito está posta.

O limiar das fendas (2022), publicado pela Urutau, está disponível no site da editora e na Amazon, ou entrando em contato com o autor em sua rede social (@dougcaco).

 

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