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Colunista

Marcos Souza

É melhor se recolher: que vazio a militância virtuosa tenta preencher?

Provocações a partir de um personagem criado por Jivago Furlan Machado.

É melhor se recolher: que vazio a militância virtuosa tenta preencher?

Jivago Furlan Machado/ Foto: Arquivo pessoal.

Poucos são os escritores que desenham diante de nós personagens tão palpáveis a ponto de não conseguirmos distinguir a fronteira entre o que é ou não ficção. No romance É melhor se recolher (2024), acompanhamos o entrelace de alguns personagens e suas histórias com o cenário psicossocial e político de uma sociedade que do Sul reflete a imagem problemática de todo um país. As análises infindáveis dessa obra podem manifestar — e refletir, para seguir o fio do raciocínio — as (in)satisfações dos próprios leitores. Jivago reescreve fluidamente o cotidiano de quem com naturalidade carrega o espinhoso fardo das escolhas, ainda que alguns escondam a expressão cansada com uma conveniente máscara. E esta é a premissa para conversarmos brevemente sobre o personagem Rafael.

As ações do personagem Rafael reproduzem a condição de um militante em tempo integral, um rapaz escravo de sua própria ideologia, vítima do ideal estabelecido por ele próprio, baseado no espectro político associado a uma esquerda radical. Rafael constrói os seus julgamentos partindo, quase exclusivamente, da leitura política do outro; como quando flagrou um colega de faculdade aos beijos com uma admirada garota: “[…] como pode esse cara chamar a atenção da Emanuele? Aposto que nem sabe em quem votou na última eleição, é um baita machista, deve até falar mal dos protestos”.

Aliás, o fato de ser um universitário de um curso repleto de conservadores e de ter muitos colegas despolitizados dividindo o mesmo ar que ele é motivo suficiente para adotar uma postura soberba, apesar de intimamente ressentido. Esse comportamento agrava quaisquer cenários corriqueiros na vida dele, colocando-o em profundos dilemas éticos que vão desde a vida de um pombo moribundo até a um adultério desejoso. O espetáculo performático de Rafael, o revolucionário da coerência, além de o tornar o “chato do rolê”, causa amargor por onde ele cospe a sua saliva fundamentada, atingindo até a nossa amada literatura: “O curioso é que […] Rafael nunca tenha parado de fato para ler poesia ou mesmo romances, considerando a ficção literária um capricho burguês alienante”.

Para fora das páginas do livro, somos obrigados a reiterar a pergunta inicial: que vazio a militância virtuosa tenta preencher? Vamos às alternativas:

  1. A) O vislumbrar da derrota inevitável para um sistema mais forte.
  2. B) A incapacidade de lidarmos com o querer do povo.
  3. C) A frustração com a nossa pouca influência na sociedade.
  4. D) A necessidade de exercer algum tipo de poder.
  5. E) Nenhuma ou todas as alternativas.

O gabarito da questão não está disponível, tampouco as alternativas querem significar alguma coisa.

A provocação, por sinal, passa longe de uma conversa despolitizante e centrista, como quem diz ser a corrupção dos outros o maior problema do Brasil; a corrupção pela corrupção. Não, o foco é o personagem, o militante com ar de superioridade, o Rafael, o risinho debochado de pseudointelectual, o homem em desconstrução, pois decorou uma citação de Beauvoir e diz ter consciência de classe. Tal militante odeia o povo, considera uma massa de ignorantes, embora não tenha coragem de assumir. Ele absorve para si a função de líder intelectual, supondo-se mais inteligente por ter compreendido como o mundo funciona, o que o faz querer mostrar a cada vírgula a sua consciência superior. Maldito Rafael!

Foi isso e mais um bocado de desabafos suscitados pelo desfecho do… bendito Rafael, criação integralmente fictícia de Jivago: este é o real culpado.

É melhor se recolher está disponível no site da Caravana Grupo Editorial em sua versão física ou entrando em contato com o autor em sua rede social (@jivagofurlan).

 

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