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Colunista

Luís Lemos

A Igreja do Diabo

Conto escrito no século XIX continua provocando escândalo no século XXI — não pelo que diz, mas pelo que aparentava dizer; relato viralizou e reacende debate sobre julgamento sem leitura

A Igreja do Diabo

'A Igreja do Diabo': leitor é confundido com satanista por causa de livro de Machado de Assis em fila de banco

Dia desses, eu estava na fila do banco e enquanto esperava a minha vez de ser atendido, lia distraidamente o livro A Igreja do Diabo, quando, sem mais nem menos, uma senhora, suponho, de idade avançada, porque estava na fila do caixa preferencial, se aproximou de mim e me disse:
— Saia daqui, seu demônio!
— A senhora está falando comigo? — indaguei.
— E quem mais aqui tem um livro satânico?

Tentei explicar-lhe que o livro não tinha absolutamente nada de satânico. Tratava-se de um conto de Machado de Assis, cuja genialidade reside justamente em revelar essa velha pressa humana de julgar as coisas antes mesmo de compreendê-las, de condenar aparências sem jamais alcançar o sentido mais profundo do que se vê.

Eu ainda estava tentando convencer aquela senhoria a não julgar o livro pela capa, quando ouvi alguém dizer:

— O que as editoras não fazem para vender livros, não é, companheiro?

— Tá aí mais um satanista — disse aquela senhorinha, saindo em retirada, blasfemando contra tudo e contra todos.

E aquele senhor, que parecia concordar comigo e que me disse logo em seguida que já tinha lido o livro, continuou:

— É impressionante como as pessoas julgam o livro pela capa — comentou ele, com um sorriso entre irônico e resignado, como quem já conhecia de longa data essa antiga mania humana de condenar a aparência antes de se permitir o trabalho da compreensão.

Concordei com ele, balançando a cabeça em sinal afirmativo, e, quando me preparava para iniciar um diálogo mais demorado, o painel chamou minha senha. Despedimo-nos com um aperto de mão, como dois leitores que, por um breve instante, haviam compartilhado não apenas um livro, mas a mesma perplexidade diante dos julgamentos apressados do mundo.

Saindo dali, fui direto para a escola. No ônibus, novamente alguém não gostou de eu estar com o livro A Igreja do Diabo na mão.
— Moço, isso aí é coisa do diabo? — perguntou uma jovem, apertando a bolsa contra o peito.

Sorri e respondi tranquilamente:

— Depende muito mais de quem lê do que do que está escrito na capa.
Ela me lançou um olhar desconfiado e mudou de banco, como se a simples proximidade com o livro pudesse abrir as portas do inferno na linha 652.

À tarde, na escola, um aluno me disse:

— Professor, o senhor é satanista?
Olhei para ele, segurei o riso e perguntei:
— Você sabe quem escreveu esse livro?
— Não.
— Foi Machado de Assis.
O menino arregalou os olhos.
— Ah… então é de literatura?
— Exatamente. E das melhores.
— Quando terminar a leitura, o senhor poderia me emprestar o livro?
— Claro!

No finalzinho da tarde, quando arrumava as minhas coisas na sala dos professores, uma colega se aproximou e me disse:

— O senhor não devia trazer esse livro para a escola — observou a professora, com a gravidade de quem anunciava uma catástrofe pedagógica. — Os alunos, impressionáveis como são, ainda acabam desejando filiar-se a essa igreja.

— Professora, o perigo não está em entrar para essa igreja, mas em permanecer na velha religião de julgar sem ler.

Continuei ajeitando as minhas coisas com calma, fechei o livro, olhei para a capa mais uma vez e pensei na ironia daquela cena. Um conto escrito no século XIX ainda conseguia provocar escândalo no século XXI, não pelo que dizia, mas pelo que aparentava dizer. Foi então que percebi que Machado de Assis continuava atual.

Em síntese, no conto, o diabo fracassa porque nem mesmo o mal consegue ser absoluto: os homens, contraditórios, misturam virtude e pecado o tempo todo. Fora do livro, a mesma contradição se repetia. Gente que jamais o tinha lido condenava sua capa, enquanto outros, talvez sem perceber, reproduziam exatamente a lição machadiana: somos rápidos no julgamento e lentos na compreensão.

Saí da escola já à noite, o livro debaixo do braço, quase como quem carrega um espelho. Porque, no fundo, não era sobre o diabo, nem sobre religião, nem sequer sobre literatura. Era sobre nós.

Sobre essa velha mania humana de julgar sem conhecer.

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