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Colunista

Ailane Brito

Dos “descobrimentos” às retomadas: o que mudou nos dias dos povos originários?

As lutas indígenas obrigaram o Brasil a se olhar no espelho — mas o país ainda desvia o olhar quando reconhece o próprio rosto. O reflexo não é apenas desconfortável

Dos “descobrimentos” às retomadas: o que mudou nos dias dos povos originários?

Do “Dia do Índio” ao “Dia dos Povos Indígenas” - Foto: APIB

Há uma disputa em curso no Brasil — e ela não é apenas territorial, jurídica ou política. É uma disputa de memória. Durante séculos, os povos indígenas foram empurrados para o passado, como se fossem parte de um “antes” já superado. O próprio “Dia do Índio”, instituído em 19 de abril, carregava esse peso: uma data mais comemorativa do que reflexiva, mais folclorizada do que politizada.

Mas isso começou a mudar. E não foi por concessão do Estado ou benevolência da sociedade brasileira. Mudou porque os povos originários se organizaram, resistiram e passaram a ocupar espaços de fala, de decisão e de confronto.

Movimentos como o Acampamento Terra Livre (ATL) são prova viva disso. Não se trata apenas de um evento, é uma afirmação política coletiva de existência. Ali, milhares de indígenas de diferentes povos denunciam violações, articulam estratégias e dizem, em alto e bom som, que não são passado: são presente e projeto de futuro.

O que mudou, então?

Mudou, em primeiro lugar, a forma como os próprios povos indígenas são percebidos — embora ainda de forma insuficiente e desigual. Hoje, há mais visibilidade. Lideranças indígenas como Ailton Krenak e Sônia Guajajara ocupam espaços de destaque no debate público. Suas vozes atravessam universidades, parlamentos, redes sociais e meios de comunicação.

Mudou também o vocabulário. Já não se fala  em “índio”, mas em povos originários, reconhecendo a pluralidade de culturas, línguas e cosmologias. A palavra carrega política, ela rompe com a ideia homogênea e colonial de identidade.

Além disso, houve avanços institucionais importantes, como o reconhecimento de direitos na Constituição Federal de 1988, que garantiu o direito às terras tradicionalmente ocupadas e reconheceu a organização social, costumes e tradições indígenas. Ainda que esses direitos sejam constantemente ameaçados, sua existência é fruto direto da luta indígena.

Mas talvez a mudança mais profunda esteja no campo simbólico: os povos indígenas passaram a disputar a narrativa sobre o Brasil.

E a sociedade brasileira? Mudou de verdade?

Aqui, a resposta exige honestidade: mudou  pouco ou mudou de forma contraditória.

Por um lado, cresce a consciência de que o Brasil não começa em 1500. Há um reconhecimento, ainda que tímido, de que este território já era habitado por centenas de povos, com sistemas complexos de organização, conhecimento e

relação com a natureza. A ideia de que somos, em alguma medida, um povo de origem indígena começa a ganhar espaço — especialmente nos debates acadêmicos, culturais e educacionais.

Por outro lado, essa percepção ainda não se traduz plenamente em prática social e política. O Brasil segue sendo um país que questiona a identidade indígena de quem não corresponde ao estereótipo colonial; trata a demarcação de terras como privilégio, e não como direito; consome a cultura indígena, mas ignora as vidas indígenas; celebra a diversidade, mas resiste à redistribuição de poder.

Há, portanto, uma contradição: reconhece-se a importância indígena na formação do país, mas nega-se espaço real para os povos indígenas no presente.

Foto: APIB

Do “Dia do Índio” ao “Dia dos Povos Indígenas

A própria mudança de nome da data — de “Dia do Índio” para “Dia dos Povos Indígenas” — não é apenas simbólica. Ela representa um deslocamento: de uma visão genérica e estereotipada para o reconhecimento da diversidade e da agência política desses povos.

Mas é preciso dizer: mudar o nome não basta. Sem enfrentar o racismo estrutural, sem garantir demarcação de terras, sem proteger lideranças ameaçadas, sem ouvir os povos originários na construção de políticas públicas, a mudança corre o risco de ser apenas estética.

Há ainda um outro risco silencioso: o de transformar o reconhecimento em discurso vazio, confortável para quem fala, mas inofensivo para quem deveria ser confrontado.

Quando instituições, escolas e governos adotam a nova nomenclatura, mas mantêm práticas excludentes, o que se constrói é uma espécie de “consciência performática” — aquela que nomeia corretamente, mas continua agindo de forma colonial. Fala-se em diversidade enquanto se silencia conflitos; celebra-se a cultura indígena enquanto se ignora o genocídio em curso em muitos territórios.

Nesse cenário, a mudança de nome pode funcionar como maquiagem política: corrige a linguagem, mas preserva as estruturas de poder que historicamente negam aos povos originários o direito de existir com autonomia, território e dignidade.

Foto: APIB

Perguntas que permanecem

As lutas indígenas obrigaram o Brasil a se olhar no espelho — mas o país ainda desvia o olhar quando reconhece o próprio rosto. O reflexo não é apenas desconfortável; ele denuncia uma estrutura construída sobre apagamentos, violências e conveniências históricas que insistem em se atualizar.

Se somos, de fato, um país atravessado por origens indígenas — nos nomes dos rios, nos alimentos, nas palavras, nas formas de existir — por que seguimos tratando os povos originários como obstáculos ao “progresso”? Que projeto de nação é esse que reivindica raízes indígenas, mas nega território, autonomia e dignidade aos seus primeiros povos?

Não se trata de desconhecimento. Trata-se de escolha. Escolhe-se relativizar demarcações, flexibilizar direitos garantidos na Constituição Federal de 1988, silenciar denúncias e, muitas vezes, criminalizar quem resiste. Escolhe-se manter intacta uma lógica colonial que aceita o indígena como símbolo — desde que não seja sujeito político.

Enquanto isso, os povos indígenas seguem fazendo o que sempre fizeram: existindo apesar do Estado, apesar do mercado, apesar da violência. Não pedem inclusão, exigem respeito a direitos que nunca deveriam ter sido negados.

Então talvez a pergunta precise ser mais incômoda, mais direta, mais honesta: Até quando o Brasil vai sustentar sua identidade sobre a negação daqueles que a originaram?

E mais, quantas vidas ainda precisarão ser atravessadas, quantos territórios devastados, quantas culturas ameaçadas, para que o reconhecimento deixe de ser discurso e se torne prática?

Enfim, os povos indígenas nunca deixaram de lutar para existir. Mas um país que precisa ser constantemente lembrado disso revela menos sobre eles e muito mais sobre si mesmo.

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