
Reprodução: Biblioteca Nacional / BBC News Brasil
A realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), em Belém, marcou um momento simbólico: pela primeira vez, a principal arena de debate climático ocorreu na Amazônia. Mais do que um evento diplomático, a COP30 promoveu discursos, publicações e narrativas que colocam a região amazônica como laboratório mundial de soluções ambientais.
No próprio evento, realizado em novembro de 2025, foi publicado o livro Cidades na Amazônia: pessoas e natureza em harmonia, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A obra propõe uma ampla radiografia da Amazônia, abrangendo não apenas o território brasileiro, mas o conjunto dos países amazônicos, com especial atenção à organização espacial da rede urbana.
Nessa “radiografia” constata-se o uso do termo “cidades anfíbias”, ideia do geógrafo Marcos Castro, lembrando o termo “homens anfíbios” desenvolvida pela socióloga Therezinha Fraxe, em sua dissertação sobre o campesinato da várzea do rio Solimões-Amazonas.
Embora a intenção da obra publicada pela BID seja valorizar a interação entre um paradigma antigo, sociedade e natureza, o livro apresenta um problema ao adotar “cidades anfíbias”, ou melhor, transpor categorias biológicas para a explicação de processos urbanos e sociais complexos
Ao que parece, alguns geógrafos demonstram certa propensão a adjetivar fenômenos processos sociais usando termos biológicos. Friedrich Ratzel, geógrafo alemão, publicou em 1899 o livro A geografia política: conceitos fundamentais, em que associa o Estado enquanto um organismo vivo.
Outro exemplo é o de Bertha Becker, ao caracterizar a rede urbana amazônica como uma “floresta urbanizada”, metáfora que privilegia o meio natural para se referir ao urbano.
Contudo, os rótulos não se generalizam na produção geográfica para se referir a outras regiões. Não falam “cidades pantaneiras”, “cidades dos pampas” ou “cidades do cerrado”. Tal assimetria revela que essas metáforas não decorrem de um método comparativo, mas de uma excepcionalização da Amazônia, caindo num exotismo banal. O risco dessa compreensão reside em reificar o ambiente como princípio explicativo na qual obscurece processos políticos, econômicos e históricos desiguais que estruturam a urbanização, independentemente do bioma em que ela está inserida.
O jargão “cidades anfíbias” romantiza a adaptação forçada de populações vulneráveis às cheias e máscara a ausência de políticas públicas. O termo tende a naturalizar o risco e a precariedade urbana, transforma um problema social e ambiental em uma suposta característica identitária regional.
Se aceitarmos “cidades anfíbias” como rótulo, abrimos espaço para uma deriva metafórica pouco rigorosa. O mesmo vale para o semiárido, no nordeste brasileiro: existem cidades “répteis” ou “xerófitas”? E em zonas temperadas, existem cidades do “Canis lupus” (lobos)?
As cidades do nordeste não são cidades “adaptadas à seca”, mas cidades produzidas sob desigualdade hídrica e gestão seletiva.
Aqui entendo que o cerne da discussão é o uso de rótulos deterministas disfarçados de inovação conceitual. A sazonalidade hidrológica amazônica afeta práticas urbanas, sim, mas isso não transforma a cidade em organismo adaptado biologicamente; transforma-a em expressão de escolhas políticas, técnicas e históricas frente ao risco e à infraestrutura.
O uso acrítico de metáforas biológicas problematiza três pontos: enfraquece a análise urbana, desloca a responsabilidade do Estado e obscurece conflitos socioespaciais.
Quando o conceito permite analogias zoológicas, ele deixa de ser categoria científica e passa a ser retórica sedutora vazia. O termo não descreve a cidade, mas sim naturaliza o meio como destino urbano.
*Carlos Rafael é formado em Geografia (UFAM) e mestrando em Geografia (UFAM).
Referências FRAXE, T. J. P. Homens anfíbios: uma etnografia de um campesinato das águas. São Paulo: Annablume, 2000. LIBERTUN DE DUREN, N. R.; MARTIN, P. M.; FERREIRA, F. C. R. B.; NINA, A. B. C.; CARDOSO, A. C.; BLANCO, A.; MORAES, A. de; SAMPAIO, A.; BRUST, A. V.; GONZÁLEZ-VELOSA, C.; GIAMBRUNO, C.; BRAGA, C.; ARIZA, C. P. O.; PELAEZ, D. T.; ARIAS, D. R. C.; COTACACHI, D.; LLAGUNO, D.; NEVES, E.; VERGARA BOLBARAN, E. J.; [...] LESENFANTS, Y. Cidades na Amazônia: pessoas e natureza em harmonia. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.18235/0013757?. Acesso em: 14 fev. 2026. LIMA, M. C. As cidades anfíbias da Amazônia brasileira: entre os extremos das cheias e secas. In: Amphibian cities. v. 5. Alexa Cultural; Universidade Federal do Amazonas. p. 117–137, 2024. RATZEL, F. A relação entre o solo e o Estado - Capítulo I. Traduzido por Matheus Prifmer. Geousp 29:51-59. 2011.
Leia mais:
- Amazonas é o 2º estado que mais explora madeira na Amazônia; Lábrea lidera ranking nacional de ilegalidade
- Amazônias em risco: o capital e a farsa verde da COP30








